JOELMIR BETING
''Não é a economia que está piorando.É a noção dela que está melhorando.''
Ronald Coase, Prêmio Nobel de Economia
O ovo e a galinha
Para robustecer um novo padrão de financiamento para o já anunciado ''espetáculo de crescimento'', nas palavras do presidente Lula, o governo estuda mobilizar a poupança dos fundos de pensão no relançamento orquestrado das obras de infra-estrutura em energia, transporte, saneamento e habitação.
Energia nem seria o caso. O transporte intermodal, tudo bem. Mas a preferência na alocação de parcela dos recursos dos fundos de pensão bem que poderia ficar com o saneamento e a habitação. Seria mais um dinheiro do povo financiando diretamente o bem-estar do próprio povo - na companhia dos depósitos baratos em caderneta e das reservas de liquidez do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS).
Primeiro, porque o dinheiro da caderneta e do FGTS pegaram desvios de rota, desfalcando o programa habitacional. Já temos até mesmo uma festejada tranche do FGTS deslocada para os riscos do mercado de ações, capitalizando Petrobrás, Banco do Brasil e Vale.
Segundo, porque ainda é vergonhosa a exclusão social bruta em habitação e saneamento. Mas os grandes fundos de pensão, paridos e cevados por estatais, preferiram investir pesado em leilões de privatização...
Terceiro, porque é da vocação dos fundos de pensão em todo o mundo participar do financiamento da economia moderna na condição de sócio no lugar do credor - exatamente como os nossos atuaram nos leilões de privatização e continuam atuando nos grandes projetos privados de condomínios empresariais. Requintados.
Quarto, porque os R$ 107 bilhões de ativos dos dez maiores fundos de pensão ''têm de ser administrados não apenas para remunerar seus associados, mas também para financiar o desenvolvimento do País'', nas palavras do ministro Luiz Gushiken, que responde por assuntos de Comunicação e Gestão Estratégica da Presidência da República.
Quinto, porque o maior desafio para um futuro ''espetáculo de crescimento'' do governo Lula está em mudar todo o padrão de financiamento do setor produtivo, até aqui bancado pelo credor e não pelo sócio. Pior: com o capital de aluguel dos bancos represado pelo arrocho monetário adicional neste primeiro semestre do governo Lula.
Vale dizer: além de escassa, a poupança financeira interna está congelada em dois terços de seu estoque bancário. Ou com boa parte dela financiando o déficit do setor público despoupado e não mais produtivo. Resultado: a injeção de capital fixo nas veias da economia brasileira não tem passado de 18% do PIB. Que até por causa disso não pode crescer acima de 2% ao ano.
SECOS & MOLHADOS
Apetite zero
Sondagem da FGV, em abril, com empresas de 19 setores, revela que 71% delas não pretendem investir em ampliação de capacidade. Até segunda ordem. Ou até uma improvável reversão a médio prazo do arrocho monetário e do garrote tributário.
Pela base
Ora, uma retomada de crescimento sustentável só daria pé se usinada pela base do investimento em produção e não apenas pela ponta do consumo corrente. Tanto mais porque 12 dos 19 setores pesquisados estão ocupando, com crise e tudo, mais de quatro quintos da capacidade já instalada.
Armadilha
Investimento sem garantia de consumo? Retomada pelo consumo (de que jeito?) e não pelo investimento empurraria a economia para um choque de oferta, religando a tomada da inflação de demanda. Que seria atacada com recarga do arrocho bancário, abortando a retomada e protelando o investimento.
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