''Na economia, a todo ciclo de oba-oba corresponde a um ciclo de epa-epa.''
Maria Conceição Tavares, economista



Enxugando gelo

Voltaremos a crescer, sim. Quando? A partir de outubro. Palavra do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), do Ministério do Planejamento. Com o adendo: mas ainda sem tempo e sem torque para levantar o PIB gregoriano, o de janeiro a dezembro, para 2%. A coisa ensaia ficar em 1,8%, mesmo com a golfada de ar no primeiro trimestre.

A projeção do Boletim de Conjuntura do Ipea bate com a mediana de cenários pintados por 117 bancos e consultorias financeiras. Bola de cristal coletiva, acionada pelo Banco Central, autor da sondagem semanal. O tal de ''mercado'' igualmente sinaliza, para este ano, um PIB raquítico de 1,8%. Mas também com alguma reaceleração (dessazonalizada) para quando setembro vier.

Se a economia brasileira contentar-se, realmente, com 1,8% em 2003, ela estará neste primeiro ano do governo Lula com desempenho inferior ao da melancólica média anual de 2,2%, a da Era FHC. Nessa toada, não haverá como evitar uma queda ainda maior do emprego geral, especialmente o do mercado formal.

O reparo é politicamente melindroso. Para 53 milhões de brasileiros, os que votaram em Lula para presidente, maioria sem saber até hoje se Copom é nome de purgante ou de pedágio, um governo petista é o único na face da terra capaz de realizar. Em quatro anos, o milagre bíblico da multiplicação dos empregos e dos salários. Sim, a partir do nada. Ou pior: a partir de uma crise ainda longe de ser debelada.

Ao que consta, a promessa eleitoral (ou eleitoreira) dos 10 milhões de novos empregos, em quatro anos, tem algo a ver com pelo menos um voto em cada três nas urnas de 2002. A cobrança dessa promessa também ensaia começar a partir de setembro...

Cobrança que deveria ser remetida ao vendedor de sabonete e de presidente, o publicitário Duda Mendonça. Ele conseguiu colocar na barba e na fala do candidato Lula, e anúncio de televisão, a seguinte liberdade poética: ''No meu governo, para cada real aplicado, um novo emprego será gerado.''

O próprio Ipea dispõe de uma dúzia de ensaios sobre as condições adequadas de realização do magno desafio. Na primeira delas, em mercado nacional de trabalho corroído pela informalidade e pela precariedade (empregos ruins com salários péssimos), o emprego só voltará a emergir quando o PIB voltar a crescer acima de 5% ao ano. Que exige, para uma recuperação sustentada da economia, uma taxa de investimentos produtivos (formação bruta de capital fixo) da ordem de 25% desse mesmo PIB. Está abaixo de 18%.


SECOS & MOLHADOS

Anorexia

Retomada do crescimento não dá liga com a manutenção da política monetária do mal desnecessário. A própria taxa básica, a Selic, está projetada pelo mercado em 21% lá na ponta de dezembro. Ou seja, não haverá alívio na overdose de um arrocho monetário mal diagnosticado e mal configurado.

Psiquiatria

Com a renda das famílias de 5% a 7% abaixo do sufoco de 2002, sem expectativa de reposição real (sequer de manutenção do emprego), o PIB só voltará a crescer se a esperança vencer o arremedo. Será preciso contar, nesta virada de semestre, com uma festiva reversão de expectativas dos que produzem e vendem, e dos que compram e consomem. Dá pra apostar nisso?

Alquimia

Talvez se aposte em efeitos positivos da aprovação das reformas. Ou será que não? A tributária é cosmética e não vai baixar a carga sobre a produção e o consumo. A previdenciária é ousada, mas só vai dar frutos reais na próxima década.

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