JOELMIR BETING
''Com pelo menos meio século de atraso, o Brasil passa a estimular o microcrédito.''
Jair Albertosi, consultor financeiro
Da inclusão bancária
Estudo do BNDES, depositado na mesa do presidente Lula, demonstra que os 175 agentes financeiros que repassam créditos da própria instituição, poderiam bancar linhas de microcrédito com juros de até 2% ao mês. Hoje, essas operações cravam, em média, 4,6%.
Ora, se mesmo uma taxa de 2% ao mês nada tem a ver com microcrédito em parte alguma do mundo civilizado, imaginem 4,6%. Não por acaso, é grande o encalhe de crédito nos bancos, mesmo com recolhimento compulsório de 68% dos depósitos. Não dá para sacar empréstimos com juros de até 7,8% ao mês em conta garantida para microempresas. Ou de até 5,1% ao mês em capital de giro na Caixa Federal ou no Banco do Brasil. Bancos estatais alinhados com juros de bancos privados.
E o que dizer do mutuário pessoa física, que prefiro chamar de pessoa cívica, para não dizer pessoa tísica? A extração do fígado sem anestesia chega a 9,8% ao mês no cheque especial. Ou chega a 14% no crédito pessoal oferecido pelas financeiras. O crédito de loja igualmente nada tem de generoso: a facada média é de 7% ao mês.
O encalhe do crédito curto e caro no sistema tem levado o governo a desconversar sobre a necessidade e a urgência de uma redução dos recolhimentos compulsórios dos bancos. Coisa triste. Uma disponibilidade maior levaria os bancos a operar com escala maior, reduzindo custos fixos, baixando juros, mitigando riscos - na lógica bancária universal do ganhar menos sobre cada vez mais.
Já que entre nós a atividade bancária genuína, a de emprestar dinheiro a empresas e a famílias, deixou de ser de há muito o foco de cada banco, que venha um microcrédito digno do nome para uma sociedade brasileira com índice recorde de exclusão bancária no planeta dos emergentes.
Nos cálculos do BNDES, com juros de 2% ao mês a rede bancária já teria demanda enrustida para 90 mil operações por mês, na faixa de R$ 500 a R$ 5.000. Casa de ferreiro, espeto de ferro, o BNDES realizou cem mil operações de microcrédito no ano passado. Com o grifo do, desde janeiro, presidente Carlos Lessa: é a linha do BNDES com o menor índice de inadimplência - apenas 4%. Nas linhas dos bancos em geral, a inadimplência das pessoas físicas está acima de 15%.
Na adubação do microcrédito, o governo Lula conta menos com a adesão dos bancos ainda de nariz torcido e mais com a difusão das futuras cooperativas de crédito a serem regulamentadas, ainda em junho, pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Elas estarão abertas à livre inscrição de qualquer pessoa, começando pela vasta legião dos cidadãos sem-banco e dos correntistas sem-crédito.
SECOS & MOLHADOS
Sem grilo
O modelo a ser regulado pelo CMN segue o padrão: as cooperativas de crédito só poderão emprestar depósitos aos próprios depositantes. Cada uma delas cuidará de definir, em assembléia. As taxas a serem pagas aos poupadores e as taxas a serem cobradas dos tomadores.
Com risco
Há quem aponte o risco de bandalheiras em uma ampla malha de cooperativas abertas a qualquer um. Mas o CMN deve baixar normas prudenciais especialmente duras para coibir a gestão temerária dessas futuras cooperativas.
Tem base
Já temos 1.395 cooperativas de crédito no Brasil, com mais de 1,5 milhão de cooperados. São entidades sem fins lucrativos de modelo fechado ou de associação segmentada (na maioria, por vínculo profissional). A segmentação por setor deixou de existir, desde novembro, para as cooperativas de microempresários.
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