''Combater a inflação inercial com arrocho monetário é como atacar febre com sangria: o doente só piora.''
Luiz Carlos Bresser Pereira, economista



Quem inflaciona?


Para o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, ''há um componente inercial importante na atual inflação brasileira''. Para combatê-la, segundo ele, só há um remédio, ainda que amargo: o crédito curto e caro, com juros calibrados de baixo para cima pela taxa básica, a Selic.

Para o ministro da Fazenda, Antônio Palocci, ''se for necessário, o Banco Central não vacilará em manter a Selic inalterada''. Justifica o ministro: ''Estamos num momento crucial do combate à inflação. Ela está em queda, mas ainda não morreu. Temos de dar os tiros finais. Não queremos só reduzir, mas matar e esquartejar a inflação.''

Por partes. Componente inercial da inflação não recomenda afrouxo no arrocho, decreta o presidente do Banco Central. Primeiro: a inércia inflacionária ocorre quando agentes econômicos apelam para a correção plena de preços e contratos pela inflação passada. O Brasil usou e abusou dela em 30 anos corridos de indexação - de julho de 1964 a junho de 1994.

Em certos transes do período, tivemos até mesmo a correção mensal dos salários. A inércia inflacionária é meridiana: se todos os preços, salários e contratos são corrigidos no presente pela inflação passada, a inflação futura jamais ficará abaixo da passada. Pode até não subir mais, mas baixar que é bom, jamais. Nem com congelamentos, com tabelamentos ou com bloqueios em banco da liquidez das empresas e da poupança das famílias.

Essa correia de transmissão da inflação inercial (que em 30 anos acumulou, ponta a ponta, 1,1 quatrilhão por cento no IGP-DI) só foi quebrada pela espetacular reengenharia monetária da URV, matriz do Plano Real. De lá para cá, a inércia inflacionária sobrevive tão-somente em contratos financeiros e imobiliários e em preços e tarifas administrados pelo próprio governo.

Ora, o arrocho monetário não alcança esses contratos, preços e tarifas total ou parcialmente indexados ou corrigidos. Logo, a inflação inercial é obra e desgraça do governo controlador e não do mercado selvagem. Em sendo assim, o arrocho monetário nada mais é que um mal desnecessário. Na melhor das hipóteses, um custo dez vezes maior que o benefício.

A indexação remanescente, nos cálculos de Luis Carlos Bresser Pereira, tem quase tudo a ver com o IPCA médio de 3% ao ano de 1995 a 1998, de 6% no triênio 1999/2001 e de 12% agora em 2002/2003. Ou se preferem: de 1995 a 2002, o IPCA acumulou 100,7%. Dentro dele, os preços livres evoluíram 78% e os preços controlados nada menos de 238%.



Secos & Molhados

Sem força

E a propalada rebrota da inércia salarial? Pesquisa do Dieese revela que apenas 19,3% dos acordos na data-base, de janeiro a maio, ficaram ligeiramente acima do INPC. Como 46,4% pastaram bem abaixo dele, a média ponderada carrega uma perda de quase 5% no poder de compra dos salários já reajustados.

Carambola

Como desgraça pouca é bobagem, salário achatado rebaixa consumo que represa produção que desliga emprego. Enquanto o Dieese mostra que desocupação é recorde em São Paulo (20,8%), o IBGE avisa que o consumo das famílias, que sustenta diretamente 60% do PIB, está 2,3% abaixo de 2002. Que bonito!

Imortal

Se o ministro Antônio Palocci promete que os juros baixarão quando o governo Lula esquartejar o cadáver da inflação, vai aqui outro reparo. A inflação nunca morre. O vírus dela é do tamanho de um cachorro. Que não late. Só morde.

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