JOELMIR BETING
''Coloco desde logo à disposição do público, gratuitamente, os projetos e as patentes do meu invento. Ele é de todos.''
Alberto Santos-Dumont (1873-1932), pai da aviação
As asas do homem
A curiosidade científica e a obstinação tecnológica eram dignas de um Leonardo da Vinci. A promoção pessoal para a valoração do próprio trabalho era o seu forte. A recusa em converter o sucesso em riqueza, o seu fraco. É assim que se resume em depoimentos e documentos o perfil de Alberto Santos-Dumont (1873-1932), mineiro de Palmira e inventor do avião.
Nesta terça-feira, a Zahar Editor promove na Livraria Timbre, no Shopping da Gávea, no Rio, o lançamento do livro ''Santos-Dumont e a Invenção do Vôo''. Trabalho espartano de um cientista apaixonado por avião, o físico Henrique Lins de Barros, também ele um pesquisador e experimentador científico. No caso, em biomagnetismo, como descobridor já consagrado de diversas bactérias que são magnéticas.
O magnetismo de Alberto Santos-Dumont foi precisamente sua moeda de troca na Paris da aurora do século 20. Ele disputava, em vôo-solo, com inventores e institutos europeus e americanos, bem dotados e já na época escorados por investidores de risco, a primazia de se colocar como primeiro ser humano a voar feito um colibri a bordo de um artefato mais pesado que o ar. Ou ainda: capaz de sair do chão com a própria força, sem vento forte e de traçar e cumprir seu próprio rumo.
Próprio rumo? O primeiro dirigível alado foi dele, o balão N-6, com o qual espantou Paris em 19 de outubro de 1901. O centenário dessa façanha, que fez germinar uma das maiores conquistas da Humanidade, passou lotado aqui no Brasil - para variar. Daí para o primeiro vôo do mais-pesado-que-ar, tocado por motor a explosão, com aviso prévio e à frente de enorme multidão, foi uma sequência natural de P&D.
Primeiro aeroplano digno do nome, o 14-Bis entrou para a História em 26 de outubro de 1906. Feita de bambu e selada com seda, a geringonça susteve-se no ar por longos 60 metros. A multidão urrou de emoção e de euforia. Haverá centenário disso cá por estas bandas? A França já está cuidando da festa dela.
Ah! E os irmãos Wright, venerados até hoje pelos americanos (e só pelos americanos) como os inventores do avião? O livro de Henrique Lins de Barros sobrevoa a polêmica e documenta, em pesquisa, o pioneirismo do nosso Santos-Dumont. Tanto quanto se lê no ensaio O legado de Santos Dumont, do mesmo Henrique Lins de Barros, publicado na prestigiosa Scientific American (edição brasileira de maio de 2003, nas bancas).
Os irmãos Wright realizaram avanços em aerodinâmica, atacaram o efeito estol, mas executaram o experimento em 17 de dezembro de 1903, sem aviso prévio, sem uma única testemunha ocular ou sequer uma única fotografia de tamanha empreitada. E só saíram do solo porque lançados por catapulta e contra fortes ventos de proa. Vale?
SECOS & MOLHADOS
Do sigilo
A revolução tecnológica do último quartel do século 19 dramatizou e deu visibilidade ao conflito de interesses em cartório entre inventores, empresas e investidores - por sobre um registro de patente. Na gestação da aeronáutica não foi diferente. Havia testes em sigilo por causa disso - caso dos irmãos Wright. A verdadeira paternidade estava, não no invento, mas na patente do próprio.
Do público
Santos-Dumont foi exceção. Ele não se lixava com a paternidade e a propriedade da patente. Ele preferia a notoriedade e a posteridade do invento. Logo, não havia por que trabalhar em silêncio, escondido da mídia, da concorrência e da comunidade científica.
Da história
Nos relatos de Henrique Lins de Barros, o desprendido Santos-Dumont, por sua transparência, inventou a promoção mercadológica da aeronáutica embrionária, dando-lhe respeito público e prestígio político. Caldo de cultura para sua espetacular decolagem a partir do nosso 14-Bis.
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