JOELMIR BETING
''Na calibragem do arrocho monetário, o medo está goleando a esperança.''
Mário Margutti Sobrinho, consultor
O limão e a limonada
Para o senador Aloizio Mercadante (PT-SP), líder do governo no Senado, é preciso, sim, ''politizar'' o debate sobre os juros. Ele já havia ''politizado'', em abril, o debate sobre o câmbio. Economista e acadêmico, o senador dos 10 milhões de eleitores sustenta que o dólar não pode ficar abaixo de R$ 3 e que os juros devem ser reduzidos pela metade em suaves aproximações trimestrais.
Para Aloizio Mercadante, que parece ter desistido de ''combater por dentro'' a orientação da política econômica, o Congresso bem que poderia mobilizar a sociedade na discussão da anestesia monetária, tida por ele como tecnicamente equivocada e politicamente suicida - para o governo Lula e para o futuro do PT. De resto, arrocho monetário herdado com casca e tudo do governo FHC.
Ao traduzir a política da perpetuação do crédito mais curto e mais caro do mundo como mero subproduto de uma ''guerra sem quartel pela apropriação de nacos da renda nacional'', o senador diz que se trata de uma guerra na qual só um dos lados tem a arma e a munição: o sistema financeiro.
Mercadante lembra que os bancos ganham dinheiro em todas as frentes. Até porque são extremamente competentes. Ganham dinheiro na inflação ou na deflação, na economia indexada ou na economia desindexada, nos mercados aquecidos ou nos mercados resfriados, nos contratos prefixados ou nos contratos pós-fixados, na oferta de créditos livres ou na aplicação de recursos vinculados, nos compulsórios reduzidos ou nos compulsórios elevados, nas linhas com garantia ou nas linhas sem garantia, na corretagem de seguros ou na colocação de títulos, nos planos de saúde ou nos fundos de previdência, na realização de coletorias ou na tarifação de serviços...
Faltou dizer: o sistema financeiro especializou-se em fazer de cada limão uma limonada. São bancos sólidos e líquidos dentro de mercados gasosos e de estatutos porosos. Se o arrocho monetário não lhes permite exercer a regra universal do ganhar menos sobre mais, o negócio é cuidar de ganhar mais sobre menos.
Com retorno médio anualizado de 18,6% sobre o patrimônio líquido, os bancos brasileiros são também os mais capitalizados do mundo. O Índice da Basiléia, que mede a relação entre o capital próprio dos bancos e respectivos ativos (ponderados pelo risco das aplicações), transita entre 9% e 11% lá fora. Aqui, o Banco Central impõe 11% como índice mínimo. Pois a coisa chegou a 16,2% em 2002.
O líder do PT afirma que a discussão dos juros está ''fechada'' no círculo autoridades, consultores e economistas de bancos: ''São eles que pautam os jornalistas nessa matéria.'' Do meu canto, não estou e nunca estive pautado por eles. Bem ao contrário.
SECOS & MOLHADOS
Para todos
Aloizio Mercadante organiza para o dia 12 um seminário no Senado com participação de políticos, empresários, consultores e acadêmicos. Ressalva que será um ''encontro estritamente técnico''. Seis dias antes da próxima reunião do Copom, mais que nunca sob pressão.
Na boiada
Na agenda, questionamento da política monetária e avaliação de medidas pontuais para a redução do ''spread'' bancário. Mercadante diz que a Selic é o boi de piranha do debate. O negócio é desviar o foco para a boiada do crédito bancário que cruza o brejo da estagnação econômica.
Sem grilo
O estreitamento do ''spread'' poderia começar por decisões do próprio governo: a) ampliação da escala bancária pela redução do compulsório (de 68%); b) redução da cunha fiscal (29%) amoitada na taxa final; c) reconhecimento de que Selic no alto não funciona para inflação de custos nem para inflação inercial.
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