JOELMIR BETING
''O sindicalismo brasileiro está cada vez mais enfraquecido no setor privado e cada vez mais fortalecido no setor público. Isso não dá liga.'' Clovis Dutra, consultor de RH
Saia justa da CUT
Em seu 8º Congresso Nacional, nesta semana, em São Paulo, a Central Única dos Trabalhadores (CUT) experimenta as dores intestinas de uma inédita crise de identidade de caráter político. Por obra sem graça de suas estreitas relações com o governo petista de Lula. Nem poderia ser diferente. O Brasil que deveria ser feito, pelos moldes da própria CUT, é bem maior que o Brasil que pode ser feito, pelos cinzéis do governo do PT.
Sim, não há como fugir da ligação siamesa CUT/PT. A única dúvida, o repasse das biografias paralelas da central e do partido, está em saber ou em admitir, ainda que intramuros, se a CUT funciona como braço sindical do partido ou se o PT opera como braço político da central.
Essa antiga questão existencial ganhou relevância ou transparência com o desembarque do PT no governo. Até porque um governo Lula devidamente abastecido por companheiros sindicalistas da CUT no primeiro e no segundo escalões. Com sobras para as ampliadas bancadas do PT na Câmara e no Senado.
Condição um tanto quanto desconfortável quando se atenta para a política econômica ortodoxa que o governo Lula deu de replicar da Era FHC. Algo que a central e o partido sempre apedrejaram em manifestos como um ''famigerado modelo neoliberal'', fiador iníquo do nosso ''agudo processo de exclusão social''.
O novo presidente da CUT, Luiz Marinho, que toma posse neste sábado, no encerramento do 8º Congresso, lava as mãos: ''O problema é que já estamos no governo, mas não ainda no poder.''
Nem vai estar. Montesquieu explicaria: o Poder dentro de uma democracia tem de ser compartilhado pelo governo com o Congresso, com o Judiciário, com as instâncias estaduais e municipais, com as forças econômicas de mando, com as oligarquias políticas de sempre e com as instituições civis proativas, começando pelo próprio aparelho sindical.
O certo é que o sindicalismo made in CUT está mesmo solidamente plantado no governo Lula - sobre representar, se é de hoje, aquilo a que se poderia chamar de Central Única dos Servidores (incluído o atuante corporativismo das estatais). O que leva o professor Paul Singer, cabeça pensante do PT, a registrar um paradoxo: nunca o sindicalismo teve tamanho espaço no governo e nunca os sindicatos estiveram tão fragilizados na economia e na sociedade.
O próprio presidente Lula, ícone de todos eles, discursou, segunda-feira, em Genebra, na Organização Internacional do Trabalho (OIT): ''Com tantos sindicalistas agora no poder, não temos mais em quem jogar a culpa de não se fazer o que tem de ser feito em nosso governo e pelo nosso País.''
Secos & Molhados
No comando - A República Sindicalista, de cima para baixo, é integrada pelo presidente Lula e pelos sindicalistas que viraram políticos e que estão ministros: Luiz Dulci (Secretaria-Geral), Luiz Gushiken (Comunicação), Antônio Palocci (Fazenda), Ricardo Berzoini (Previdência), Humberto Costa (Saúde), Olívio Dutra (Cidades), Marina Silva (Meio Ambiente), Miguel Rossetto (Desenvolvimento Agrário), Agnelo Queiroz (Esportes), Emília Fernandes (Secretaria da Mulher) e Jacques Wagner (Trabalho).
Na operação - Levantamento de O Estado de S.Paulo aponta para 66 sindicalistas ungidos a cargos de chefia na Esplanada dos Ministérios. Dos quais, 27 no Ministério da Saúde. Duas vezes mais que os 9 do Ministério do Trabalho. No inventário, um presidente, 9 ministros, 3 secretários de Estado, 66 postos-chave nos ministérios e outros 11 no Palácio do Planalto. Eis o tamanho da saia justa da CUT.
www.joelmirbeting.com.br
[email protected]





