JOELMIR BETING
''Lula tentará calar Alencar. Collor tentará calar Itamar.''
Manchetes de junho de 2003 e junho de 1990
Em casa sem pão...
Na sentença do vice-presidente da República, José Alencar, empresário de carreira, as taxas de juros cobradas da produção e do consumo não passam de um ''verdadeiro assalto''. Eis que o ministro do Planejamento, Guido Mantega, principal assessor econômico do PT, enquadra o alvo: ''O assalto à mão armada está no disparate do spread bancário.''
O presidente Lula, finalmente, conversa com o vice Alencar sobre a conveniência política de uma sintonia fina entre o recurso curto e o discurso solto do governo como um todo. Exigência da melindrosa reversão das expectativas econômicas da sociedade brasileira, ainda ressabiada e em transe.
Está na sociologia do mercado: nesta altura do calendário, uma reversão das expectativas, na linha do ''o pior já passou e agora a coisa vai engrenar'', vestiria a camisa da própria reestabilização dos preços, dos custos e dos juros. Assim como a expectativa da crise provoca a crise que sanciona a expectativa, também uma percepção coletiva da iminente superação da crise é condição relevante, ainda que não suficiente, para essa virada do jogo.
Ocorre que o vice Alencar tem luz própria, como holofote próprio tinha o vice Itamar. Lembram-se? Itamar Franco chegou a ponto de, na Presidência, fazer oposição a si mesmo.
O problema é que a questão dos juros, que é técnica, adernou para uma crise política intestina do governo Lula. O segundo homem do governo, que não é o vice José Alencar, mas o ministro da Casa Civil, José Dirceu, articulador político por ofício do cargo, acaba de atacar o incêndio em domicílio com jatos de álcool anidro.
Disse José Dirceu, terça-feira, na reunião semanal de coordenação política do Planalto: ''Nessa encrenca gratuita dos juros, o presidente entra de bandidão e o vice de mocinho. Assim não dá. Desse jeito, fica realmente complicado coordenar o governo.''
Em outro nível de competência, Alencar tem o mesmo pavio de Itamar: muito curto. Ou se preferem: sem pavio. Tanto assim que, com crachá de PL no ninho do PT, rebateu de bate-pronto na mesma terça-feira: ''Se até hoje o próprio governo não me procurou nem me consultou para nada, dando a entender que não tenho nenhuma serventia no Palácio, então me considero politicamente liberado para dar minha opinião pessoal sobre qualquer assunto do governo.''
Vixe! Que vice! José Alencar só faltou dizer: na contestação da política econômica, refém da antiga criogenia monetária, que de há muito asfixia a economia e estiola a sociedade, ''nada mais faço que cobrar o programa do partido deles e a promessa eleitoral do presidente''.
Secos & Molhados
Até quando?
Única certeza: se o descarte da overdose de arrocho monetário (que até por overdose é veneno puro disfarçado de remédio duro) é uma questão técnica bem ao largo da arena política, que se parta para uma solução técnica. Algo mais que aguardar, bovinamente, a queda da inflação. De resto, já em queda.
Que solução?
Rebaixar a Selic na base e acionar a queda do ''spread'' na ponta. A primeira depende da caneta colegiada do BC. A segunda exige mudanças ousadas. Pelo governo, redução orquestrada da cunha fiscal na taxa final (29%), dos compulsórios (68%) e da porosidade e morosidade das garantias bancárias.
Por que não?
Por iniciativa dos bancos, a bordo de retenções menores com garantias maiores, cuidar de ganhar menos sobre cada vez mais, sustentavelmente. Até aqui, eles se obrigam a ganhar mais sobre cada vez menos. Em certas linhas, já no limite da usura. Ou da ruptura.
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