''O acesso à alimentação segura é algo mais que um direito humano; é um direito animal.''

Jacques Diouff, diretor-geral da FAO

O panelão vazio

Na desnutrição endêmica que animaliza a vida de 840 milhões de criaturas humanas em todo o mundo, Brasil no meio, prevalece a triste sina do planeta sem alma: já não é mais a escassez do recurso que limita a decisão; é a estupidez da decisão que atrofia o recurso.

Tradução: o que não falta é capacidade de produção, já instalada, para alimentar pela dieta mínima 6,2 bilhões de terráqueos.

O que continua faltando é vontade política, em países ricos, pobres e remediados, para enfrentar e extirpar esse flagelo milenar.

Lembram-se da Cúpula Mundial sobre Alimentação? Realizada em 1996, ela se comprometeu em reduzir à metade, em 20 anos, o inventário global de famintos. Pois essa contagem regressiva para 2015 já foi empurrada para 2030. Quando? Em 2002, pela Cúpula Mundial do Desenvolvimento Sustentável.

É contra esse pano de fundo melancólico que entra em campo na Cúpula do G-8 a proposta brasileira de um Fome Zero para todos os países situados abaixo da linha da pobreza. Programa financiado por um fundo global que seria constituído pela anistia de 50% da dívida externa desses países e por 1% do comércio mundial de armamentos.

Faltou incluir uma Taxa Tobin, equivalente a 1% do movimento internacional dos capitais voláteis.

Estudos da OMS e da FAO, organizações da ONU para Saúde e Alimentação, dão a pista do desafio. Bastaria um panelão de US$ 24 bilhões por ano para livrar da morte por inanição cerca de 26 mil pessoas por dia, crianças na maioria.

Pois o que não falta é comida. A produção mundial de cereais, sem contar o restante do cardápio humano, daria conta dessa empreitada. Ela se aproxima de 1,8 bilhão de toneladas por ano. Ou quase um quilo por dia para cada habitante da Terra. Somando-se os demais alimentos de origem vegetal e de origem animal, a oferta atual já passaria de 3,5 quilos por dia.

Relatório da FAO revela que a ajuda alimentar dos 30 países mais ricos aos 80 países mais pobres definhou o bolo do pico de US$ 16 bilhões, em 1988, para US$ 11 bilhões, em 2001. Dois terços dessa transfusão representados por programas humanitários em situações de emergência suprema. E com larga margem de desperdício e de corrupção na partilha radicular dessa ajuda.

Prêmio Nobel de Economia, o professor Amartya Sen é autor da seguinte simulação: cada dólar aplicado por países doadores em segurança alimentar de países receptores pode gerar um retorno a médio prazo de até US$ 12 sob a forma de bens e serviços dos primeiros importados adicionalmente pelos segundos. Que tal?

Secos & Molhados

Logística
O desafio da fome coletiva não está em produzir mais alimentos, mas em distribuí-los em condições de mercado. A menos que se pretenda resolver o problema pela agricultura familiar de baixa eficiência e de mera subsistência. Em escala global, um Fome Zero teria de envolver uma logística poderosa.

E Malthus?
A oferta global de alimentos por habitante vem de há muito superando o crescimento da população. Pelo índice 100, atribuído ao triênio 1979/81, a produção mundial per capita tocou o índice 114 no triênio 1998/2000. Manteve-se quase estável na fartura dos países ricos (105 nos Estados Unidos e 107 na União Européia).

Contraste
Na Ásia, o índice escalou 149, guinchado pela China, com 198. Na América Latina, a coisa avançou para 124. Para variar, a África foi de mal a pior. No mesmo período, o índice trienal apurado pela FAO recuou para 94.


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