''Como diria meu lado musical, ainda estamos afinando a orquestra. Logo, logo vai começar o espetáculo do crescimento em nosso país.''
Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República


Como é que é?

O presidente Lula endossa a equivocada terapia monetarista da equipe econômica. A mesma terapia que nos governa e intimida há duas décadas. Ou desde a ruptura da dívida externa nos anos 80. De lá para cá, a economia brasileira tem resfolegado com crédito à produção e ao consumo abaixo de 25% do PIB. Em meio mundo, a coisa vai de 80% a 130% do PIB. Sem inflação.

O presidente Lula disse no portão da Ford, quinta-feira, que ''os juros vão baixar quando os preços baixarem''. Bem, o certo seria dizer ''quando os preços subirem menos, cada vez menos''. É bom não confundir queda de índices com queda de preços. Queda de preços é deflação, já aqui e ali pipocando no atacado.

Igualmente não se deve dar eco à dissonância cognitiva dos acadêmicos que ditam o rumo e o ritmo da política monetária. São os juros que inflacionam os custos (e preços) e não o contrário. Juro é custo de crédito bancário que eleva o custo da produção financiada que aumenta o custo do consumo de bens e serviços em geral, financiados ou não.

Os juros no alto e em alta inflacionam por tabela os custos de rolagem da dívida pública que financia o déficit público. Já não é mais o déficit que provoca a dívida. Agora é a dívida que realimenta o déficit. Déficit que sinaliza o risco que reinflaciona os juros. Juros que atiçam o dólar que aumenta os preços que os juros altos imaginam controlar...

Pela primeira vez, o Copom desata na ata a análise da variação da carestia à frente da análise da evolução da economia. A ordem é amainar o ''fogo amigo'' do governo e do partido por uma redução tempestiva da Selic. Pouco se lhe dá que o PIB tenha resvalado para a recessão no primeiro trimestre nem que os preços no atacado tenham entrado em deflação agora em maio.

Dentro do IGP-M, no acumulado do ano, a variação dos preços no varejo (IPC) foi de 7,07%, maior que a dos preços no atacado (IPA), de 6,73%. Uma reviravolta. No acumulado dos últimos 12 meses, o IPA ainda está quase duas vezes maior que o IPC.

Pois bem. Antes, o Copom não baixava a Selic porque ''o IPA está grávido do IPC'' (o atacado de hoje é o varejo de amanhã). Agora, IPA abaixo do IPC, o Copom suspira na ata que é preciso aguardar que o IPC exiba uma ''desaceleração célere''.

E mais: o Copom deplora a remarcação de preços livres de mercado pela inflação passada ao tempo em que nada fala sobre a remarcação contratual, pela mesma inflação passada, dos preços e tarifas administrados pelo próprio governo.

Ah! Enquanto o Copom admite que o choque cambial já se esgotou no ventre do IPA, o Banco Central acaba de intervir no câmbio para não deixar o dólar cair ainda mais...


Secos & Molhados

Ainda não

Para justificar o garrote monetário da economia em um governo petista politicamente constrangido, a equipe econômica repete aos quatro ventos que a inflação (em declínio) ainda é uma bomba-relógio. Resultado: quem ensaiava segurar ou rebaixar preços, acaba ficando na moita do ''reajuste preventivo''.

Não falha

Também nos tratos da inflação, a expectativa de alta provoca a alta que sanciona a expectativa. E quem vive falando dessa corda em casa de enforcado é justamente a ata do Copom, encharcada de Medo Brasil.

Durma-se

Dizem que a Selic não baixou porque havia pressão política para baixá-la. Vai daí que o Banco Central, empenhado em fazer valer sua autoridade técnica, tomou a decisão política de não mexer na Selic, ignorando a condição técnica para reduzi-la. Reagiu politicamente para sinalizar que é estritamente técnico.

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