JOELMIR BETING
''Nos juros, o que se vê é o Banco Central dizendo saber o que faz. E o restante do governo sem saber que há muito mais por fazer.''
Roberto Macedo, economista
Pedalando sem rodas
Do alto de sua informalidade semântica, o presidente Lula diz que ''este país'' está montado em uma bicicleta ergométrica no canto do apartamento da estagnação econômica: a gente pedala, pedala e pedala e continua sempre no mesmo lugar.
Enquanto o IBGE revela que a economia brasileira realmente pedalou feio na bicicleta ergométrica do primeiro trimestre (com queda do produto por habitante), a pesquisa Dieese/Seade avisa que estamos a bordo da maior taxa de desemprego (20,6%) de todos os tempos. Ou desde a primeira sondagem mensal da série, nos idos do Muda Brasil de 1985.
O relatório do Dieese/Seade demonstra que desgraça pouca é bobagem. Ao lado da queda do emprego, tem-se em decorrência a queda do salário real no emprego formal e no trabalho informal (em maioria). Queda de 3,6% da remuneração periclitante da força de trabalho metropolitana. Os homens baixaram a média mensal para R$ 1.015 e as mulheres para R$ 661.
Culpa da ''herança maldita'' do governo FHC, suspira o ministro Guido Mantega, do Planejamento e do Orçamento (arrochado). Nada a ver com a elevação dos juros e dos impostos desde janeiro nem com a redução de 14,4% na oferta de crédito bancário no primeiro quadrimestre. De nada valeu o refresco da carestia nossa de cada dia, que trocou o aclive pelo declive entre o Natal e o carnaval da esperança nacional.
Economistas e empresários admitem, nesta altura do calendário, que 2003 já pode ser considerado um ''ano perdido''. Um desencanto coletivo para o discurso petista da retomada do crescimento econômico por cima e ao largo da ortodoxia monetarista que teima em paralisar a economia, endividar o governo e empobrecer a Nação.
Ortodoxia que nos vende o peixe podre de uma pajelança atravessada. Ela sustenta que os compulsórios e os juros permanecem no alto porque os riscos da inadimplência e de uma ''farra de crédito'' inflacionária ainda são de assustar Átila e Drácula.
Sim, para o BC, a febre é a causa da infecção. Ou seja: não são os juros extorsivos em prazos inexeqüíveis que provocam a inadimplência; é a inadimplência que justifica para as empresas juros anuais de 74% no capital de giro ou de 77% nas duplicatas. Ou para as famílias, de 209% no cheque especial, de 232% no cartão de crédito ou de 302% no empréstimo pessoal.
Eis o tamanho da bicicleta ergométrica pedalada hoje por 175 milhões de brasileiros. Dos quais, pelo menos dois terços ainda acreditando na promessa dos 10 milhões de novos empregos em quatro anos do governo Lula.
Eles votaram nisso.
Secos & Molhados
Anorexia 1
O governo retira da oferta de crédito 68% dos depósitos bancários. Isso força o setor a ter de ganhar mais sobre menos e não, como no mundo todo, menos sobre mais. O governo lucra com isso, sem trabalho e sem risco: na surdina, ele embolsa 29% da taxa final camuflada de cunha fiscal.
Anorexia 2
O governo vacila em amarrar medidas para a redução pactuada do ''spread'' dos bancos. Entre outras, a redução da cunha fiscal - mais vale tributar menos sobre mais do que mais sobre menos. Ou o fim da porosidade jurídica que patrocina o calote de caso pensado por sobre o cadáver de garantias bancárias de mentirinha.
Anorexia 3
Afrouxar o garrote monetário, irmão siamês do garrote tributário, seria como devolver o peixe ainda vivo ao rio que passa. O Brasil não pode perpetuar a covardia de praticar os juros e os impostos mais criogênicos do mundo civilizado. Um dos dois deve estar errado: ou o Brasil ou o mundo.





