''Sempre que a realidade econômica muda, minha convicção acadêmica também muda.''

John Maynard Keynes (1983-1946), economista inglês



Remédio ou veneno?

Quem ganha com o arrocho monetário, feito de crédito curto e caro? O capital volátil externo e o capital ocioso interno. Quem perde com o mesmo arrocho monetário? O capital produtivo ao longo de sua vasta correia de transmissão - investimento, inovação, ampliação, projeto, produção, serviço, emprego, salário, encargo, tributo, confiança, dignidade e futuro.

O governo Lula lava as mãos feito Pilatos e suspira fundo: não dá para interromper a terapia dolorosa em plena reversão do processo inflacionário. Que terapia? A panacéia importada da Universidade de Chicago há cinco décadas: segurar e reverter a inflação a golpes calibrados de recessão. Uma recessão fabricada pela caneta da autoridade monetária: encurta-se o crédito e eleva-se o juro para produção, giro e consumo.

Lógica dessa pajelança anoréxica: a) sem crédito adequado, os mercados de bens e serviços resvalam para o encalhe; b) no encalhe, os preços param de subir e passam até mesmo a cair. Em tempo: na Argentina, em 2002, o PIB despencou para -10,8% e o IPC disparou para +34,2%. Aqui no Brasil, em 2000, Fraga & Malan afrouxaram o arrocho monetário e o PIB cresceu de 0,7% para 4,4% e o IPCA baixou de 9% para 6%.

O problema é que a monetarice de base acadêmica nutre total desprezo por forças estabilizadoras que ganharam enorme potência nos últimos dez anos em meio mundo: choques encavalados de competição casados com choques cumulativos de modernização. Sim, como nunca antes na biografia do capitalismo opulento, concorrencial e modernoso.

A modernização das empresas e a competição nos mercados, tocadas por engenheiros, executivos, consultores, marqueteiros, fornecedores, distribuidores e consumidores (estes, cada vez mais informados, seletivos e infiéis) cometeram a façanha de enjaular até mesmo a inflação de demanda em mercados aquecidos.

Sem mistério. A modernização localiza custos, identifica custos, classifica custos, rebaixa e/ou remove custos. A competição promove o compartilhamento desses ganhos líquidos entre os elos da cadeia produtiva. Incluído o consumidor anônimo ou o cliente corporativo.

Na estabilização atribulada de 1994/2003, o Plano Real entrou com a desindexação e os mercados da economia real contribuíram com a primeira colheita dos choques de competição e modernização - para um modelo até então cepalista de protecionismo enrustido, fiador de uma economia acomodada de baixa eficiência, geradora de empregos ruins com salários péssimos. Ainda hoje.

Secos & Molhados

Quem faz

A verdade é que a competição e a modernização, escoltadas pela desindexação e pela informação (de mercado), tem feito mais pelo controle da inflação do que a neutralidade fiscal e a austeridade monetária. Esta, até por overdose, um veneno puro fantasiado de remédio duro.

No desvio

Sim, está na hora de interromper ao meio uma terapia equivocada que paralisa o setor privado, endivida o setor público e empobrece a Nação. De resto, caso único no mundo. O crédito bancário ao setor produtivo está abaixo de 24% do PIB. Lá fora, essa oferta oscila de 70% a 130% do PIB. Sem inflação.

Deflação

Nos Estados Unidos, na União Européia e no Japão os juros de base e de ponta são os mais baixos em meio século. Na base, taxas reais negativas? A inflação explodiu por causa disso? Virou deflação. Só falta avisar a Selic.

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