''Também o câmbio não dá liga no partido: metade quer real fraco para exportar mais; metade quer real forte para inflacionar menos.

Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central

O piso é R$ 2,90?

Consultores e executivos chegados ao comércio exterior disseram, ontem, que o Banco Central acabou por sinalizar ao mercado que há um piso-gatilho para intervenção altista no câmbio: R$ 2,90. Faltaria insinuar qual seria o teto-gatilho para intervenção baixista. Seria R$ 3,40? Ou R$ 3,50?

Claro, a autoridade monetária devolve de bate-pronto essa aleivosia. Está escrito na própria nota técnica do Banco Central, a do anúncio da mudança na rolagem da dívida pública atrelada ao câmbio (34,7% do total). Textualmente: ''Neste regime (de metas para inflação) não cabe o estabelecimento de outras metas para o Banco Central, como a fixação de tetos ou de pisos para a taxa de câmbio.''

Ou ainda: ''A redução gradual dos títulos cambiais tem como único objetivo melhorar o perfil do passivo do governo e não estabelecer metas para a taxa de câmbio.''

Ocorre que é da própria função do Banco Central atuar em mercado de livre flutuação cambial. Não há necessidade de se estabelecer o piso nem o teto - a menos que se reconstitua o ectoplasma da banda cambial, abatida em janeiro de 1999. Ator do mercado em liberdade, o Banco Central tem massa crítica para inibir surtos de ''flutuação suja'', respeitando-se os ciclos da flutuação limpa.

Em regime de flutuação, a equipe econômica interfere no mercado: 1) quando manipula expectativas positivas ou negativas dos agentes econômicos; 2) quando eleva ou rebaixa as taxas de juros no rodapé do sistema financeiro; 3) quando eleva ou rebaixa tarifas de blocos pesados do comércio exterior; 4) quando executa políticas monetárias e fiscais apertadas ou frouxas; 5) quando, diretamente, oferece ou retira ''hedge'' cambial em títulos públicos; 6) quando, também diretamente, compra ou vende dólares no mercado.

Nada contra. Ou como escreve Fernão Bracher, presidente do Banco Itaú BBA e ex-presidente do Banco Central (1985/87): ''O importante é que o Banco Central não se revele ausente ou omisso em tempos de flutuação histérica. A disposição de evitar volatilidade exagerada deve estar sempre clara.''

Ao decidir segunda-feira pela redução gradual dos títulos cambiais ''com o único objetivo de melhorar o perfil do passivo do governo'' a autoridade monetária segue a linha de baixar o coeficiente de vulnerabilidade do serviço da dívida interna, porta de entrada do risco país. Num segundo momento, o refluxo dessa percepção de risco tende a conduzir o câmbio para a bitola da flutuação limpa.

Flutuação limpa significa, entre um e outro soluço, uma cotação mediana, no mês ou no trimestre, pelo eixo da chamada taxa efetiva real de câmbio. O mercado sabe que taxa é essa.

SECOS & MOLHADOS

Um cochilo

O que causou estranheza na não-intervenção já intervindo de segunda-feira foi o horário do anúncio da mudança: 14h30, mercado a carga plena, trotando a R$ 2,90, com viés de baixa ao fim do dia. Desde quando se muda regra de câmbio em pleno jogo do mercado mais arisco e ressabiado do mundo?

Isonomia

A bordo das tecnologias da informação em tempo real, o mercado cambial tem de ser informado pela autoridade monetária quando do expediente já fechado. É para que todos os agentes e pacientes desse mercado possam ter acesso a essa informação em conjunto e com tempo de processá-la a juízo de cada um.

Um perigo

Mexer no câmbio em pregão aberto é fazer o jogo da ''flutuação suja''. O dentista J. R. K. fechou operação imobiliária dolarizada por volta das 15 horas a R$ 2,90. Ao chegar em casa, às 16 horas, a coisa já estava em R$ 3,03. ''Por falta de um radinho de pilha, perdi em meia hora 3,8% sobre R$ 850 mil.''

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