JOELMIR BETING
''O que eu espero do ano 2000? Bem, que as nações poderosas deixem de agir como gângsteres. E as fracas, como prostitutas.''
Stanley Kubrik, cineasta americano (em 1975)
Alca para 2010
Sim, por que não empurrar a ignição da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) de 2005/2006 para 2010? Afinal, a pressa na carpintaria do bloco é dos Estados Unidos, mentores da iniciativa. O compromisso deles é com a urgência e não com a perfeição.
Por uma simples e boa razão: a economia mais poderosa e mais competitiva do mundo não precisa de musculação prévia para encarar qualquer mercado em regime de isonomia tarifária. Tanto mais quando a integração comercial de padrão Nafta abriria espaço político para a agenda nobre: acesso às compras governamentais, proteção leonina da propriedade intelectual, abertura de mercados de serviços ainda trancafiados, livre recirculação de investimentos ou de capitais.
Uma engenharia diplomática digna do trabalho de 12 Hércules. Com sobras para assuntos não menos abrasivos: segurança continental conjunta, políticas casadas de sustentabilidade ambiental e usinagem de acordos bilaterais com os demais blocos econômicos.
Em suma: não dá para negociar tudo isso, nem sequer para implementar alguma parte disso, até janeiro de 2005. Brasil e Argentina, agora sob nova direção e com nova disposição, fazem o principal interlocutor de Washington. Com canal de expressão já montado - o Mercosul. Que teria de ser resgatado dos atuais escombros antes de uma ''sentada na mesa'' com o governo Bush (que se pretende reeleito em 2004).
Pelo sim, pelo não, hoje é dia de Alca em Brasília. Estada de dois dias, entre nós, do principal negociador comercial dos Estados Unidos, o competente Robert Zoellick, tende a redesenhar a posição do Brasil sob o governo Lula. Que não mais esconde a intenção de negociar uma revisão dos termos da Alca - no formato, no conteúdo e no cronograma.
Espécie de balão-de-ensaio para o encontro Bush/Lula, de 20 de junho, em Washington. Brasil e Estados Unidos estão compartilhando a presidência da Alca e Brasília não gostou das ofertas americanas de liberação comercial apresentadas por Washington em fevereiro. O chanceler Celso Amorim já deixou escapar que o cardápio americano é absolutamente indigesto. Ou inaceitável.
Quer dizer: esta primeira rodada de apresentação de propostas concretas já começou com o pé esquerdo. A águia americana parece ter apelado para a tática do ''bode russo'' na direção da anta brasileira.
Ou como resume o ministro Luis Fernando Furlan: ''Eles querem abrir onde são os mais competitivos sem abrir onde somos nós os mais competitivos.''
Ora, isso é como exigir que todas as mulheres sejam casadas; porém, os homens, não.
Secos & Molhados
Bilateral 1
Brasil e Argentina estão a fim de relançar o projeto 4+1. Um acordo bilateral piloto entre os quatro do Mercosul (mais Uruguai e Paraguai) e os Estados Unidos (sem Canadá e México, parceiros do Nafta). Até o Chile pediria carona para um 5+1. E a Alca? Ficaria fazendo círculos n'água até 2010.
Bilateral 2
Ocorre que os Estados Unidos já se anteciparam na costura da própria Alca. Eles vestiram a camisa do bilateralismo e buscam negociar agendas comerciais paralelas, com barganhas e velocidades distintas, privilegiando o Nafta, o Caribe, a América Central, a América do Sul e o Mercosul - pela ordem.
Bilateral 3
Brasil de Lula e Argentina de Kirchner rejuntam as peças soltas e examinam a conveniência de se aprofundar e acelerar um acordo bilateral do Mercosul com a União Européia. No mínimo, para produzir ciumeira americana e expulsar o ''bode russo'' da Alca.
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