‘‘O otimista acha este o melhor dos mundos. O pessimista tem absoluta certeza disso.’’
Karl Kraus (1874-1936), escritor austríaco

Expectativas deflacionárias
O governo Bush ganhou a guerra contra o tigre de papel do Iraque, mas vai perdendo a guerra contra a estagnação econômica. Um resfriamento geral que já tirou de circulação, em dois anos, 2,2 milhões de vagas de trabalho.
Pois foi exatamente assim, com a economia fazendo água por todos os furos, que George Bush, o pai, ganhou a Guerra do Golfo e perdeu a reeleição logo em seguida. Ah! George Bush, o filho, vai tentar a reeleição no ano que vem. Sem reativar a economia? Bem, quem não tem expansão de empregos caça com redução de impostos. Uma tesourada de prováveis US$ 450 bilhões até 2013. Longe!
O que os americanos discutem hoje, nos lares e nos bares, não é a possibilidade da reeleição em 2004, mas a probabilidade da deflação agora em 2003. Deflação é quando (quase) todos os preços do universo econômico declinam mês a mês por um trimestre ou mais.
Em tal ambiente, pessoas e empresas não voltam às compras. Bem ao contrário, permanecem na moita, aguardando preços ainda menores por sobre encalhes cada vez maiores.
Tradução: deflação é irmã siamesa da recessão, com pinta de depressão. Fácil de entrar nela, difícil de escapulir dela. A queda dos preços só é saudável quando produzida por ganhos de produtividade. Sinônimo de redução positiva de custos. Ou por choques encavalados de competitividade, dentro de mercados aquecidos.
O resto é sinistrose orquestrada. A expansão sem inflação da economia americana na segunda metade da década passada não contagiou a economia européia desanimada nem a economia japonesa encrencada. Mas os analistas juram agora que a virtual recessão com deflação da economia americana vai agravar a abulia da economia européia e a letargia da economia japonesa.
Até prova em contrário, os Estados Unidos ainda não estão em recessão nem em deflação. Falou-se em recessão iminente na chegada do ‘‘bug’’ do milênio (1999), no estouro da bolha do efeito riqueza (2000), na destruição apocalíptica das torres do WTC (2001), no aviso prévio da remoção cirúrgica de Saddam (2002), na própria invasão consumada do Iraque (2003), nos pruridos de deflação agora em maio, nos grunhidos da Sars de baixo no planeta China...
Única certeza: o dólar americano está em queda e vai continuar em queda pelos mercados do mundo. Por decisão política da Casa Branca de susto. Dólar fraco fora de casa não abala o orgulho da América e retempera a competitividade do made in Usa no mercado interno e no mercado externo. A ordem é reverter um déficit comercial que se inclina para US$ 550 bilhões por ano. Ou para US$ 1,5 bilhão por dia.
Yes, aumentando a aflição dos aflitos europeus e japoneses e dos novos aflitos asiáticos, os chineses.
secos & molhados
Amarelou
  A deflação come solta no Japão. No vaivém, desde 1995, tempo de aceleração da economia americana, ainda antes da crise global made in Ásia, em 1997. No primeiro trimestre, deflação de 3,5%, a maior de todos os tempos. Com o PIB no purgatório do crescimento zero.

Quem perde
  Também a deflação é chegada ao círculo vicioso. Ela aumenta as dívidas em termos reais, por mais ousada seja a redução pontual dos juros. Os americanos desfilam dívidas equivalentes a 7 meses e meio de salário. Aqui no Brasil, crédito curto e caro, a média do papagaio bancário é de 27 dias de salário.

Piorando
  A deflação aumenta os ganhos reais da poupança em renda fixa, desestimulando ainda mais o consumo. Pior: ao derrubar preços e lucros das empresas, ela achata ainda mais o efeito riqueza das bolsas, pé-de-meia de metade dos consumidores americanos.
Amarelou
  A deflação come solta no Japão. No vaivém, desde 1995, tempo de aceleração da economia americana, ainda antes da crise global made in Ásia, em 1997. No primeiro trimestre, deflação de 3,5%, a maior de todos os tempos. Com o PIB no purgatório do crescimento zero.

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