JOELMIR BETING
''Pensamento hegemônico da equipe econômica: se for para errar nos juros, que seja por conservadorismo e não por voluntarismo.''
Lauro Jardim, jornalista
O tigre virou anta
Errar por conservadorismo significa, no caso da overdose do crédito mais curto e mais caro do mundo, queimar o Galileu da atividade econômica na fogueira de uma dissonância cognitiva de base acadêmica: a de continuar jurando, por todos os juros, que o sistema financeiro é o centro do universo econômico em torno do qual giram todos os corpos celestes do setor produtivo.
Ou se preferem: o rabo vai ter de continuar abanando o cachorro por todas as galáxias de uma economia brasileira enjaulada por uma austeridade monetária despropositada e anacrônica. O monetarismo já morreu e os monetaristas ainda não foram avisados.
Foi o que sentenciou, em 1993, antes do Plano Real, um tal de Nicholas Brady: ''O Brasil é a melhor promessa não cumprida da economia mundial.'' Com a competente contribuição dos monetaristas enrustidos, somos há exatos 20 anos um tigre enjaulado por um crédito bancário abaixo de 25% do PIB. E tigre na jaula tem a força e a garra de uma anta.
E tome nova colherada do purgante da Selic do medo. A taxa básica vai continuar aí pelo altiplano de 26,50% ao ano. Sem viés de baixa. De nada adiantou a coleção de indícios concretos de reversão do processo inflacionário e de acomodação do aneurisma cambial. O Copom está com o Medo Brasil e não abre.
A ordem é continuar cevando a ganância do sistema financeiro, ganhador sólido e líquido de um Brasil gasoso que ''não mais consegue soerguer-se do chão puxando os próprios cabelos'', na observação do consultor jurídico Alberto Fasanaro.
O próprio mercado financeiro acaba de reprojetar o PIB 2003 para 1,9% na sondagem semanal do próprio Banco Central. Com Selic de no mínimo 22% lá na ponta de dezembro. Mesmo com IPCA acumulado passando de 16,8% nos últimos 12 meses para 8,3% nos próximos 12 meses.
Nada contra a promoção obstinada da estabilidade monetária como fator condicionante para a retomada do crescimento econômico (fator condicionado). O que se questiona é a usinagem equivocada dessa estabilidade. O refluxo da inflação, que se desgarrou sob o safanão do câmbio selvagem e do pescoção tarifário, não tem sido uma façanha da austeridade monetária sem paralelo no mundo. Nem da recessão purgativa produzida por essa mesma criogenia bancária.
A reversão do IPCA, servida por espasmos de deflação no atacado, tem a ver com choques de competição nos mercados e com ganhos de modernização nas empresas. Incluídos setores e negócios sob pressão de demanda. De resto, um fenômeno universal. Que o digam os atuais pruridos de deflação no G-7.
Secos & Molhados
Que força!
Será que a Selic, congelada à direita da vírgula, tem mesmo tutano, calibre e munição para controlar todos os custos, margens e lucros de 6 milhões de agentes econômicos, com sobras para as escolhas de 175 milhões de brasileiros embasbacados? Ou tudo não passa da fantasia intelectual orquestrada, no conceito teorizado por Celso Furtado?
Quem faz
No controle da inflação pesa mais o Efeito Carrefour que o Efeito Selic. Ou mais o efeito Embrapa na produtividade da nova safra recorde do campo (sem crédito adequado) do que o Efeito Copom. Ou mais os avanços dos engenheiros e dos empreendedores do que os ranços dos economistas e dos burocratas.
Formigões
Brandindo a Selic, os doutos membros do Copom comportam-se como as formigas da fábula dos moicanos canadenses. Seguinte: formigas aboletadas em tronco que desce o rio imaginam todas elas que estão dirigindo o tronco...
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