JOELMIR BETING
''A taxa de juros que estimula a poupança é exatamente a mesma que atrofia consumo, produção, emprego, renda, poupança...''
Maurice Allais, Prêmio Nobel de Economia
É o tarifaço, imbecil
Durante almoço com banqueiros, segunda-feira, em São Paulo, a vice-diretora do FMI, Anne Krueger, meteu a mão na caixa dos marimbondos engravatados. Questionou a overdose do arrocho monetário como proporção do PIB e pediu explicações sobre a elástica estrutura do ''spread'' bancário - de até 142% ao ano no cheque especial.
Apontada como um dos três nomes mais cotados para a sucessão de Alan Greenspan no comando do Fed (banco central americano), Anne Krueger alinha-se entre os analistas de estofo acadêmico que acalentam uma dúvida de travesseiro: será que o Brasil é o único país do mundo que não tem juízo para respirar com crédito bancário acima de 25% do PIB? Há dezenas de países com crédito acima de 90% do PIB e inflação abaixo de 5% ao ano.
Aqui na economia da anta, a oferta de financiamentos para investimentos fixos e para giro e consumo mal passou de 23% do PIB em março, tempo de guerra alheia. E devem ter reprisado o garrote também em abril e agora em maio, tempo de Sars de baixa na Ásia e de deflação nos dois lados do Atlântico Norte.
Sim, quando a inflação troca o aclive pelo declive, o Copom faz reunião com aviso prévio para sopesar outras condicionantes da Selic no alto. Nesta quarta-feira, a taxa básica leva jeito de permanecer em 26,50% ao ano por pelo menos mais quatro semanas. De nada vale anotar que os juros a futuro do mercado já transitam abaixo da Selic.
A ordem é manter a Selic ulcerando 60% da dívida pública que financia o déficit público. O que produz mais déficit, que agrava a percepção de risco, que realimenta a exigência do juro no alto e em alta. Selic que justifica a usura dos juros de ponta, que inflacionam os custos da produção e as contas do consumo. E desde quando expandir os custos da dívida pública e os custos da economia real é combater inflação de demanda, de resto de há muito reprimida?
Em tom professoral, o monetarismo enrustido, que enriquece os bancos e empobrece a Nação, prefere suspirar fundo, ensinando: 1) é preciso aguardar a maturação de ''novos indícios de uma queda verdadeiramente consistente da inflação''; 2) é preciso antecipar-se a eventuais efeitos desestabilizadores importados da pneumonia asiática, da deflação sistêmica do G-7, da desvalorização do dólar no mercado global, dos novos ataques terroristas, do discurso de posse de Kirchner na Casa Rosada de tontura...
Faltou dizer, como lembra o presidente da Abrasca, Alfried Plöger: é preciso aguardar, sobretudo, os novos reajustes tarifários de junho, arbitrados pelo próprio governo. Reajustes que têm a ver com dois terços do núcleo da inflação. Fora do alcance, pois, da espingarda mata-gato do Copom.
Secos & Molhados
Olha o muque! - Na provável manutenção da Selic medrosa, a autoridade monetária igualmente pretende fazer demonstração de força e de autonomia operacional. Afinal, nunca se viu tamanha pressão de fora para dentro e por dentro do próprio governo por uma distensão no garrote monetário da economia estagnada.
Esqueçam-me - Sim, desata o governo petista, ''esqueçam o que eu escrevi, cobrei, exigi e xinguei'' nos palanques de 1989, de 1994, de 1998 e de 2002. Contra o tal de mercado sem bandeira e sem remorso. Em abril de 2002, as empresas pagavam juros anualizados de 36,2% no capital de giro. Em abril de 2003, média de 47,4%.
Extorsão - Há um ano, as famílias pagavam 83,6% no crédito pessoal. Agora, 100,6%. Com a FGV demonstrando que as pessoas físicas (ou cívicas) andam torrando 29,8% da renda mensal nos encargos financeiros diretos e indiretos. Caso único no mundo.
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