JOELMIR BETING
''A economia brasileira caiu na armadilha do mercado financeiro. Estamos encabrestados pelo despropósito dos juros proibitivos.''
José Alencar, vice-presidente da República
Encabrestados & Cabreiros
A estabilidade monetária é o fator condicionante. O crescimento econômico é o fator condicionado. Assinado: Pedro Malocci. Ou por outra: Antonio Palan.
Nada contra as leis pétreas da economia, ciência severa da escassez, da privação e da paciência, diria Carlyle. Não há crescimento econômico sustentável no tempo e no espaço sem a estabilidade monetária e a neutralidade fiscal. Além, claro, das regras claras do jogo econômico e da segurança jurídica dos contratos.
Nada contra. O problema está nos equívocos recorrentes das políticas de estabilização. Equívocos de seleção de medicamentos disponíveis e equívocos de dosagem dos remédios escolhidos. Aí é que mora o perigo do mal desnecessário: a lâmina de celofane que separa o remédio do veneno é simples questão de dosagem.
Pois o arrocho monetário, que se faz acompanhar do garrote tributário, é o maior constrangimento neurológico da economia brasileira. Um e outro sem paralelo lá fora. Em nome da estabilidade monetária? Ora, dezenas de países desenvolvidos e em desenvolvimento desfilam economias estabilizadas sem os cabrestos do crédito curto e caro e sem a cunha fiscal indireta cumulativa, confiscatória e concentradora de renda.
Nos Estados Unidos, a economia ainda na ressaca está com as patas dianteiras na deflação, mesmo com crédito bancário plenamente oferecido e extremamente barato. Não há inflação de demanda nem com essa velha farra de crédito. Nem quando esse mesmo PIB cresceu quase 5% ao ano, sustentadamente, na segunda metade da década passada. No período, o núcleo da inflação não passou de 1,5% ao ano.
Na tigrada asiática retemperada, a economia volta a crescer acima de 5% ao ano - com inflação abaixo de 5%. Na Argentina, nossa companheira na UTI do FMI, a economia encolheu 11% em 2002. Deve ter mergulhado de cabeça numa baita deflação. Certo? Errado. A inflação escapuliu de menos 10% para mais de 30%.
Nem é preciso sair de casa. Aqui mesmo no Brasil, em 2000, quando Armínio Fraga, sem discurso e sem alarde, baixou os juros e soltou homeopaticamente o crédito bancário, o PIB cresceu de 0,7% para 4,4%. Inflacionou? O IPCA retrocedeu de 9% para 6%. Com impulso de banguela, no primeiro trimestre de 2001, para um IPCA de 4% e um PIB de 5,5%. Lembram-se? Antes do apagão...
Tradução: o falso dilema do se parar a recessão pega ou se andar a inflação mata só existe na cachola acadêmica de um monetarismo enrustido que não sabe explicar o Brasil 2000, a Argentina 2002, a Ásia 2000/2003 nem os Estados Unidos 1995/1999.
Secos & Molhados
Nova economia
O que coloca a inflação anual na jaula de um dígito não é mais a austeridade monetária nem a neutralidade fiscal. Desde os anos 90, a façanha é do tripé competição, modernização, informação. Incluídos os países ricos que já se consideravam de há muito competitivos, modernosos, informados e globalizados.
Outro planeta
Nos emergentes, tal como nos desenvolvidos, a oferta de crédito bancário para produção e consumo transita de 80% a 130% do PIB. No Brasil, abaixo de 25%. Nos emergentes, a carga tributária indireta sobre produção e consumo contenta-se com menos de 15% do PIB. No Brasil, acima de 25%. Um dos dois deve estar quadradamente errado: ou o Brasil ou o mundo.
Ilusionismo
Ontem, dia de retórica do desenvolvimento na reunião ministerial. Hoje, dia de exortação do crescimento no Fórum Nacional. Com as secretárias do lado pagando 196% ao ano no cheque especial.
www.joelmirbeting.com.br
[email protected]





