''Em tempos de mudança, a minoria tópica dos perdedores faz mais barulho do que a maioria difusa dos ganhadores.''
Pérsio Arida, economista

Intervenção ou não?

Com o dólar americano, em 15 meses, flutuando de R$ 2,30 para R$ 3,90, agora abaixo de R$ 2,90, prossegue cada vez mais animada a discussão sobre o sexo dos anjos: deve haver limites para a flutuação cambial? No caso, limites sinalizados por intervenções pontuais do Banco Central.

Discussão inaugurada dentro do próprio governo Lula. Ou mais precisamente: por uma bola quadrada alçada na grande área da equipe econômica pelo senador Aloizio Mercadante (PT-SP), guru econômico do partido e líder do governo no Senado.

Claro, ao pensar em voz alta sobre matéria tão sensível, incluído o presidente Lula, o governo atiça as lombrigas da área acadêmica, ao tempo em que empolga as conversas dos analistas financeiros de bancos, fundos, bolsas e empresas com negócios e/ou dívidas lá fora ou importados aqui dentro.

E tome um animado garimpo de aritmética financeira para a localização da chamada taxa efetiva real de câmbio. Esta é que determina o verdadeiro grau de depreciação e/ou de apreciação do real em relação ao dólar. Dado básico para enquadrar o alvo da discussão ou o grau do desvio para uma eventual intervenção.

Para Fernão Bracher, presidente do Banco Itaú BBA e ex-presidente do Banco Central (1985/87), a flutuação em economias ainda em transição, com rabo preso na área externa, acaba sendo do gênero ''selvagem''. Ele escreveu no jornal Valor (12/5/03) sobre as ''armadilhas do câmbio flutuante'' e não deixou barato: ''Só haverá estabilidade se houver intervenção.''

Intervenção direta ou indireta? Tanto faz, diz Bracher: ''O governo sempre atua em regime de flutuação, quer queira, quer não.''

Enumerando, em especial: 1) quando interfere nas expectativas positivas ou negativas dos agentes econômicos; 2) quando manipula as taxas de juros para cima ou para baixo; 3) quando eleva ou rebaixa tarifas de comércio exterior; 4) quando executa políticas monetárias e fiscais apertadas ou frouxas; 5) diretamente, quando oferece ''hedge'' cambial ao mercado ou quando compra ou vende dólares nesse mesmo mercado.

O importante, para Bracher, é que o Banco Central não se revele ausente ou omisso em surtos de volatilidade histérica: ''A disposição de evitar volatilidade exagerada deve estar sempre clara.''

O economista Yoshiaki Nakano, diretor da FGV-SP, concorda: a flutuação sem intervenção é economicamente paralisante. Ele estima que, para voltar a crescer, o Brasil deveria estar agora com dólar acima de R$ 3,50 e não abaixo de R$ 2,90.

Secos & Molhados

Taxa real? - Metodologias paralelas indicam que a taxa efetiva real estaria hoje entre R$ 2,60 e R$ 2,70 por dólar. Acima dessa bitola, o real estará valendo menos do que realmente pesa. Ou seja: daria para flutuar, sustentadamente, entre R$ 2,90 e R$ 3,20.

Bitolada - Fernão Bracher recomenda uma espiada no modelo cambial da China, que ainda está comunista. O mercado é livre, mas o governo é o ator principal. A volatilidade é mínima. Em abril, a moeda chinesa subiu 5% e o governo reverteu. A China quer exportar US$ 1 bilhão por dia. Com saldo anual de US$ 50 bilhões.

Diversão - Enquanto isso, Gustavo Franco escreve na Veja que se delicia hoje com o neoliberalismo exacerbado do PT no governo. Com o dilema explícito: metade do partido e do governo querendo real fraco para exportar mais e a outra metade propondo real forte para inflacionar menos.

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