JOELMIR BETING
''Com essas taxas de juros, a economia brasileira só voltará a crescer quando conseguir erguer-se do chão puxando os próprios cabelos.''
Alberto Fasanaro, consultor jurídico
Um túnel sem luz
Do presidente do FMI, Horst Köhler, avalista de primeira instância da política econômica do governo Lula: os fundamentos da economia brasileira estão reconsolidando-se com firmeza e isso favorece uma certa distensão no arrocho monetário ainda especialmente severo.
Do presidente do Banco Mundial, James Wolfensohn, credor externo de primeira linha de políticas públicas no Brasil: a economia brasileira trabalha com um crédito bancário muito caro e muito curto para os padrões internacionais, a dano de sua competitividade interna e externa.
Do economista John Williamson, a quem se atribui a patente do ''Consenso de Washington'', fantasia acadêmica ideologicamente orquestrada: a política monetária no Brasil acumula espaço para uma ''redução substancial'' dos juros, ainda postados no limite do exagero. Textualmente: ''Será um erro se não houver um corte da Selic na próxima reunião do Copom.''
Do arcebispo d. Geraldo Magela Agnelo, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), fiadora de primeira trincheira dos programas sociais do governo Lula: ''A Igreja não pretende negar a política econômica do novo governo. Mas discorda da teimosia com o regime dos juros altos. Vivemos uma época iníqua em que se gratifica quem tem o dinheiro e se sacrifica quem só entra com o trabalho - quando há emprego sob tamanha extorsão financeira.''
O arrocho monetário criogênico (e desnecessário) da economia, agravado pelo garrote tributário anoréxico (e sem retorno) da sociedade, tem tudo a ver com o andar de caranguejo do produto nacional por habitante. O avanço da economia mal cobre o crescimento da população. E a modernização da economia de baixo crescimento não dá passagem para a expansão do emprego e, por tabela, para a elevação do salário.
De 1995 a 2002, o PIB resfolegou pela média de 2,3% ao ano. Mal deu para sustentar um empate técnico com o aumento da população economicamente ativa no mesmo período.
Não é para menos. No crédito bancário, o custo financeiro para as empresas, pelo lado da oferta de bens e serviços em geral, vai de 27% a 65% ao ano. Para as famílias, pelo lado do consumo movido a crediário, a cartão de crédito/débito e a cheque especial, mui especial, os juros oscilam de 86% a 194% ao ano.
Há financeiras do crédito fácil cobrando até 334% ao ano, segundo a Anefac. Mas aí o assunto bem que deveria ser transferido do Banco Central para a Polícia Federal. Não há ''lógica bancária'' que justifique tamanha usura. Que mereceu do vice-presidente da República, José Alencar, o rótulo adequado de ''verdadeiro assalto''.
SECOS & MOLHADOS
Dos bancos
O lucro dos bancos privados sobre o patrimônio líquido cresceu 24,5% no ano passado e mais 35,4% no primeiro trimestre deste ano, informa a ABM Consulting. Maior instituição estatal, aqui e ali socorrida pelo Tesouro Nacional, o Banco do Brasil ampliou sua lucratividade em 37,2%, de janeiro a abril. Parabéns.
Das empresas
De abril de 2002 a março de 2003, a dívida de 60 grandes empresas cresceu de 73% para 93% do patrimônio líquido. No período, o patrimônio líquido dessas mesmas empresas encolheu em média 21%. Levantamento da consultoria Economática.
Dos salários
Relatório da CNI revela que a queda do emprego geral refletiu na queda real do salário médio do setor industrial. Nos últimos 12 meses, perdas reais de 7,7% no poder de compra dos salários. E pensar que o emprego dos trabalhadores depende dos consumidores que são os próprios trabalhadores...
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