JOELMIR BETING
''Na aviação comercial, o paradigma dos mercados mudou. O paradigma das grandes empresas do setor, ainda não.''
Gianfranco Beting, editor do www.jetsite.com.br
Asas de chumbo
O sufoco da aviação comercial brasileira tem como único consolo a encrenca de igual calibre que joga areia nas turbinas das 267 companhias que exploram linhas internacionais em todo o mundo.
Com sobras de crise sistêmica para a maioria das 502 operadoras de alcance doméstico.
Tem-se por esses números que o lado da oferta está inchado para um negócio que teria de voar quase lotado, de preferência. Ou com pelo menos dois terços de ocupação, por sobrevivência. Claro, sem guerra tarifária canibalesca, mero subproduto da superoferta.
Um modelo anacrônico para um negócio de capital intensivo, em processo de evolução tecnológica continuada. Com um paradoxo a bordo: as novas tecnologias de operação na terra e no ar e de manutenção de frotas e instalações e de reposição de equipamentos e sistemas estão encarecendo a unidade de produto ou serviço.
Diferentemente do que ocorre em quase todos os demais setores da economia moderna - que se permitem realizar produtos e serviços cada vez melhores a custos e preços cada vez menores. Ou a custos e preços pelo menos estáveis.
A crise do setor emergiu na crista da onda de transformações em cadeia: desregulamentação dos mercados e respectivas reservas, choques encavalados de competição, ondas montantes de modernização, esgotamento de subsídios oficiais, fim da era do combustível barato... Fechando a roda: terrorismo ubíquo e pneumonia bíblica deixando em terra um terço ou mais da demanda já reprimida.
Para analistas britânicos do setor, ouvidos pela The Economist, o coronavírus que ataca o mercado alado não é a falta de competição, DNA da acomodação. Bem ao contrário, é o excesso de concorrência.
A maior do mundo, a American Airlines, detém apenas 7% do mercado global. No primeiro quadrimestre, perdeu na operação do negócio US$ 10 milhões por dia. Demitiu meio mundo, incluído o presidente.
Com as duas asas na inadimplência, o novo titular, Gerard Arpey, tenta renegociar com os credores o que já havia sido renegociado em janeiro. Os investidores não mais colocam dinheiro no setor. Juntas, as 10 maiores companhias americanas totalizaram, em abril, US$ 3,2 bilhões em valor de mercado. Em bloco, elas devem na praça US$ 103 bilhões.
Desde 11 de setembro de 2001, o dia que ainda não terminou, queda acumulada de 36% na demanda mundial de passagens aéreas. Claro, incluídos os efeitos da desaceleração do PIB global de 3,1% para 1,6% ao ano neste triênio 2001/2003.
Secos & Molhados
Mamutes
Um Jumbo da Boeing, com ou sem leasing, não sai da linha de montagem de Seattle por menos de US$ 250 milhões. Do tamanho do ''capital cost'' que a Volkswagen depositou na fábrica de caminhões em Resende, RJ. A heráldica KLM vale em bolsa US$ 410 milhões. Ou menos de dois Jumbos.
Da fusão
Com a fatura de quatro Jumbos dá para cimentar a fusão da Varig com a TAM, avaliada pelo banco Fator em exatamente US$ 1 bilhão no novo aporte de capital. Em tempo: o passivo da Varig já está em US$ 2,2 bilhões.
Sem cura?
O renomado Robert Crandall, ex-chairman & CEO da American Airlines, disse outro dia em conferência de consultoria: ''Existe algo de fundamentalmente errado numa indústria irremediavelmente incapaz de recuperar seu capital cost a médio ou a longo prazo.'' Boeinnng!
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