JOELMIR BETING
''O poder econômico tornou-se global, mas o poder político vai continuar local. Isso não vai dar liga.''
Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente da República
Dinheiro no interior
Balanço do agronegócio no primeiro quadrimestre do ano, cotejado com o mesmo período do ano passado: 1) aumento de 19% na colheita de verão; 2) aumento de 31% no valor exportado; 3) aumento de 41% no saldo externo apurado.
A nova safra de grãos, já nos rescaldos, deve ficar ao redor de 115 milhões de toneladas. O ministro Roberto Rodrigues calcula que haverá empenho ainda maior para o ano-safra 2003/2004. Não se afasta a hipótese de uma expansão de até 10% no próximo plantio. Menos por ampliação de área ou de fronteira e mais por aporte maior de insumos modernos nos espaços já cultivados.
Não é para menos. Nesta altura do calendário, grandes e médios produtores e valentes cooperativas de produção desfilam um coeficiente de capitalização bem acima da média histórica do setor.
Ou seja: o dinheiro está rolando solto em quase todas as cadeias de valor do agronegócio. A tal ponto que o grosso do replantio e do custeio, a partir de agosto, deve ocorrer com o cacife dos recursos próprios. Ou como costuma dizer Gilberto Adrien, que é do ramo: ''O lucro ainda é o melhor adubo da terra.''
Que o diga o complexo descomplexado da soja. Cultura intensiva de tecnologia, com índices de produtividade já acima dos americanos e argentinos, a soja totaliza, no quadrimestre, aumento de exatos 88% no seu faturamento lá fora.
Mais até que outras commodities de exportação, ela desfruta de um triplo toque de Midas: a) elevação do preço lá fora; b) valorização do dólar aqui dentro; c) dolarização dos derivados no mercado interno (em 2002, o óleo de soja subiu 72% no varejo). Esta nova colheita deve furar a barreira de 50 milhões de toneladas, cerca de 20% acima do festejado ano-safra anterior.
O novo recorde da soja não ofusca a nova façanha do milho. Com a colheita de verão já encerrada e com esta safra recorde de repique, vulgo safrinha, o milho promete perto de 43 milhões de toneladas. Mas já purgando, até por causa disso, queda nos preços de até 25%. Bom para a ração do porco, do frango, do leite, da carne... Pois os embarques das nobres proteínas animais cresceram 23% no quadrimestre, atraindo exatamente US$ 1 bilhão. Algo parecido com dois terços de tudo o que Brasil gastou, de janeiro a abril, na importação de alimentos.
A acomodação do dólar na bitola de R$ 2,90 a R$ 3,10 é hoje a base do planejamento do agronegócio para o ano-safra 2003/2004. O câmbio já deixou de ser uma festa tipo bolha. E não se deve empenhar o futuro sobre bolha no presente.
Secos & Molhados
Animação
O mercado global do trio de ferro soja-milho-trigo confia em alta sustentada de preços neste próximo verão do Hemisfério Norte. Na soja, os estoques de passagem dos Estados Unidos são os menores em 25 anos. Na semana passada, o bushel cravou US$ 6,38 para julho - a maior cotação desde 1997.
Elo perdido
O agronegócio brasileiro continuará desfalcado de um regime de crédito rural adequado. Os bancos, BB à frente, estão financiando diretamente menos de um quinto do PIB agrícola. E o seguro rural ainda é meramente residual.
Fechadura
Outro complicador pela proa: a União Européia não está mesmo a fim de rebaixar suas barreiras. E a nova lei agrícola americana vai simplesmente ampliar os generosos subsídios à produção nativa. Dá para competir com o Tesouro americano?
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