''As taxas de juros no Brasil são proibitivas. Um despropósito. Em certos casos, elas não passam de um verdadeiro assalto.''
José Alencar, vice-presidente da República


Mãos ao alto!

O arrocho monetário é um mal desnecessário. Até por overdose, o crédito bancário curto e caro funciona como veneno puro disfarçado de remédio duro. Sim, a doutrina econômica reinante ainda acredita que o terrorismo financeiro da produção e do consumo é a única vacina eficaz contra o coronavírus da inflação de demanda.

A pajelança da usura consentida e estimulada, segundo essa mesma dissonância cognitiva de base acadêmica, deve ser aviada até mesmo em casos clinicamente comprovados de inflação de custos. Incluídos os próprios ''custos financeiros proibitivos da produção'', no grifo do empresário José Alencar, que está vice-presidente da República.

Faltou dizer: o arrocho monetário do setor privado rebate feito bumerangue no serviço da dívida do setor público. O governo é o maior devedor no sistema financeiro nacional. Ele empina um papagaio do tamanho do Everest. Algo acima de 55% do PIB. E, na rolagem dessa dívida, quem acaba determinando a taxa de juros não é o governo sem opção, é o tal de ''mercado'' sem coração.

Ao Brasil que arrisca, emprega, trabalha, produz e consome, a oferta de crédito bancário tem ficado de há muito abaixo de 25% do PIB. Ou em exatos 23,7% em março último. Sobre o primeiro trimestre de 2002, o garrote de janeiro a março concedeu um refresco de mais 4,1% para o setor industrial em troca de uma redução de 14,1% para o comércio e os serviços.

Esse purgante financeiro criogênico, destilado por um monetarismo equivocado e anoréxico, constitui o maior gargalo institucional da economia e da sociedade. Um desvio de rota que estiola a economia, incapacita o governo e empobrece (e embrutece) a sociedade. Só há um ganhador líquido com esse modelo no qual ''as taxas de juros não passam de um verdadeiro assalto'': bancos e fundos aqui dentro e lá fora. Os nossos continuam desfilando rentabilidade de até 25% do patrimônio líquido.

O certo é que da aplicação dogmática do arrocho monetário desde a ''debt crisis'' dos anos 80, temos que o PIB brasileiro passou do crescimento médio sustentável de 7,1% ao ano na década de 70 para 2,2% na década de 90. Ou para 1,3% neste triênio 2001/2003. Abaixo do crescimento continuado da população, agora pelo trote bem comportado de 1,4%.

Enquanto isso, o governo Lula (exceção do vice Alencar) lava as mãos para essa monetarice importada da Escola de Chicago e prefere atacar bois de piranha intelectuais do tipo intervenção ou não no câmbio, focalização ou não da plataforma social, adoção ou não do regime de superávit anticíclico...

Secos & Molhados

Assalto 1

Inventário do IBGE revela que o consumo das famílias brasileiras movimenta diretamente 61% do PIB. O problema é que ''as taxas de juros proibitivas'' do crédito de bancos e de lojas oscilam ao redor de 110% ao ano. Sem alternativa. Aqui no Brasil, para diversas categorias de consumo, quem não deve não tem.

Assalto 2

O consumo cotidiano igualmente é movido a crédito na classe média bancarizada. Consumo diário bancado por cheque especial e por cartão de crédito. Pois esse capital de giro da classe média, sem garantias bancárias, desfila juros, em média, de 177% ao ano no primeiro e de 194% ao ano no segundo.

Assalto 3

E a classe pobre, refém do MSB - Movimento dos Sem-Banco? Bem, ela é atraída pelo canto de sereia de financeiras televisivas do crédito fácil. Pagando juros de até 335% ao ano. Fácil.

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