JOELMIR BETING
''Os políticos são as únicas pessoas que não se entendem quando falam a mesma língua.''
Marshall McLuhan (1911-1980), sociólogo canadense
Câmbio viagra
O câmbio flutuante jamais perderá a mania de flutuar, relembra a cada taxa o professor Antônio Delfim Netto. O câmbio livre quer dizer câmbio livre e prosseguirá tratado como câmbio livre, reafirma o ministro Antônio Palocci Filho. Combinados?
Vai daí que o governo não pretende ''meter o dedo'' no câmbio, suspira o presidente Luiz Ignácio Lula da Silva. Ao que o vice-presidente José de Alencar deixa escapar para um auditório de executivos da siderurgia verde-amarela de ansiedade: ''Toda noite eu rezo para que o Palocci mantenha o câmbio flutuante.''
''Amém'', devolve a platéia. O setor exporta US$ 1 bilhão por mês e só não embarca o dobro porque tem de dar conta da ilustre clientela no mercado interno (dolarizado). E porque americanos, europeus e asiáticos continuam com os respectivos mercados blindados em aço contra os atrevimentos do similar made in Brazil.
Enquanto isso, o ministro do Desenvolvimento, Luis Fernando Furlan, responsável também pelo ''front'' do comércio exterior, volta a comparar o dólar forte (em reais) ao efeito Viagra para a elevação estimulada das vendas brasileiras. Até porque, pelo perfil dos nossos embarques, os preços lá fora não estão a fim de atiçar nossa libido exportadora. Sem considerar o estressante custo Brasil aqui dentro.
Essa conversa cambial a céu aberto, sobre ser inusitada quando puxada por membros de governo, é um jogo de transparência mais chegado à imprudência. As entrelinhas de cada fala oficial distraída sobre matéria cambial (ou sobre política monetária) têm poder de intervenção erradia no mercado em regime de flutuação. Mercado especulativo por natureza, necessidade e definição.
É o que já nos ensinava, nos idos de 70, o professor Mário Henrique Simonsen (1935-1997). Certo dia, cometi a asneira de lhe indagar sobre câmbio em entrevista na televisão. O então ministro do governo Geisel soletrou: ''Câmbio não foi inventado para ser discutido, publicamente, pela autoridade monetária. Câmbio existe para ser decidido e operado sem qualquer aviso prévio. Perguntar a um ministro sobre câmbio, me desculpe, é como perguntar a alguém se a mãe dele é séria.''
Pelo sim, pelo não, o líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP), recomenda o uso de pára-quedas no dólar que despenca lindo. Na base do ''se melhorar, estraga'', só falta sugerir o piso-gatilho para a intervenção: R$ 2,80. E mais: propõe um urgente debate interno sobre ''controle do capital volátil externo''. Que adora precisamente esse tipo de coisa.
Secos & Molhados
Em má hora
Uma pena. O mercado em liberdade bem que vinha buscando, por sua própria conta e risco, a tal de taxa efetiva real de câmbio. Aquela cotação mediana, em curso trimestral, que tende a refletir todos os preços relativos do universo econômico (e não meramente os espirros e os esbirros da própria bolsa cambial).
Para todos
Afinal, para baixo ou para cima, o câmbio tem a ver com o interesse direto de todos os agentes e pacientes da economia ainda em transe - e não apenas com as conveniências tempestivas do comércio exterior nas duas mãos.
Já passou
O que importa é o inventário do nosso reequilíbrio macroeconômico e não a discussão futeboleira de quem ganha e de quem perde nas marolas da flutuação cambial. Até porque, no câmbio, o pior já passou.
www.joelmirbeting.com.br
[email protected]





