''As nascentes jamais aprovariam o itinerário dos respectivos rios.''
Jean Cocteau (1889-1963), escritor francês

Capricho da natureza

Transição epidemiológica. É assim que os pesquisadores da indústria farmacêutica dão nome ao atual escarcéu da pneumonia chinesa altamente contagiosa que já bate ponto nos pulmões de mais de 7 mil infectados em 28 países - três batidas na madeira.

Na bula do fenômeno, transição epidemiológica significa um capricho da natureza: doenças antigas rebrotam com a pilha toda, enquanto doenças novas pipocam sem aviso prévio. Em especial, a partir da África degradada e da Ásia superlotada.

Eis o mundo quase todo outra vez em transe. Incluído o Banco Central do Brasil. Quem diria? A Síndrome Respiratória Aguda Severa (Sars, em inglês) cintila na última Ata do Copom como novo complicador para a redução dos juros no Brasil. Por causa dela, continuaremos pagando 177% ao ano no uso e no abuso do cheque especial, mui especial.

Primeiro: a nova ''crise asiática'' começa a cavar buracos na mal pavimentada estrada da recuperação da economia mundial. Segundo: esses buracos surgem justamente no terço mais dinâmico do mercado global, o da tigrada retemperada, dragão chinês à frente. Terceiro: falou emergentes na corda bamba, falou Brasil por osmose.

A nova crise pós-bolha e pós-guerra teria massa crítica para reduzir em até um quarto a taxa já modesta do PIB global em 2003 - nos chutes do FMI. Isso reavivaria a aversão ao risco financeiro entre investidores americanos e europeus, credores de quase 90% dos títulos da dívida externa dos emergentes.

Fechando a roda, essa recaída da aversão ao risco por causa desse coronavírus que escapuliu da jaula animal (de algum porco ou de algum frango nos quintais de Guangdong) poderia reverter o ajuste externo do Brasil. Ela pressionaria o dólar, que realimentaria a inflação, que elevaria o juro, que encurtaria o crédito, que deprimiria o consumo, que encalharia a produção, que afundaria o emprego...

Gripe danada, pois. Seu impacto sobre o câmbio e respectivas sequelas viria a galope igualmente de nossas vendas aos mercados em sobressalto da China, Hong Kong, Taiwan e Cingapura.

O chamado turismo de negócios na região registra, desde fevereiro, queda livre de quase 70%. O que só tem feito por agravar a aflição dos aflitos - os assentos vazios dos aviões de carreira em meio mundo. O turismo de lazer também acaba de jogar a toalha nas rotas internacionais. Ficar viajando a bordo de uma cápsula pressurizada, por horas a fio, em companhia de 303 pessoas desconhecidas, deixou de ser um programa de lazer. Até prova em contrário.

Secos & Molhados

Nova batalha
Ainda esfalfados pela caça ao vírus da aids, os laboratórios globais engolem quilos de viagra para a exploração desse novo megamercado da transição epidemiológica: pesquisas para testes de diagnóstico, remédios adequados, procedimentos médico-hospitalares, vacinação em massa...

Nova corrida
A identificação do coronavírus deu-se em tempo recorde por um ''pool'' científico costurado por governos e operado por laboratórios estatais e privados. A primeira vítima tombou em 8 de janeiro e o vírus foi desmascarado em 25 de março. O que mais atrapalhou na China foi a censura decretada pela ditadura comunista.

Nova patente
Agora, é cada um para si e Sars de baixo para todos. O Genoma Centrum, de Vancouver, acaba de pedir registro de patente comercial para o primeiro mapeamento genético completo do vírus da Sars. Daí para a vacina é meio caminho andado.

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