''Nossa economia rural tornou-se refém da modernização. De intensiva de trabalho, está virando intensiva de capital.''

Rinaldo Luis Mascarenhas, geneticista



Na raça e no risco

O hiato de produto da economia rural brasileira é da ordem de 80%.

Entenda-se por hiato de produto a distância que vai do que está sendo produzido em relação ao limite ótimo do que poderia ser produzido de maneira sustentável.

Nosso limite ótimo tem tudo a ver com o tal de paraíso do em-se-plantando-tudo-dá, vislumbrado sem sair da praia pelo repórter Pero Vaz de Caminha em carta à Corte datada de 3 de maio de 1500.

Estudos de potencial para a exploração de nossas lavouras, pomares, rebanhos, granjas e florestas renováveis indicam que estamos descolando do banco da natureza, até aqui, nada além de um quinto desse imenso cheque visado para saque futuro. Palavra da trintona Embrapa, estatal que deu certo no ''front'' da pesquisa agropecuária.

Nosso hiato de produto de 80% leva na devida conta tanto o potencial ainda por desbravar na horizontal do território como o potencial ainda por acessar na vertical da produtividade.

Na década passada, o espaço ocupado por lavouras e rebanhos alastrou-se em pouco mais de 12%. Pois, dentro desse perímetro ligeiramente ampliado, a extração do PIB rural cresceu nada menos de 95%. Cruzem os dados e sintam o calibre dos ganhos de produtividade da economia rural brasileira nesse mesmo período.

Que o diga o desfile pirotécnico do campo no Agrishow desta semana, em Ribeirão Preto, SP. Essa mostra anual, lançada em 1993, exibe toda a musculação da chamada cadeia de valor do agronegócio brasileiro. Uma encenação impressionante do que o trabalho, o capital e a tecnologia estão realizando por estes brasis varonis - inteiramente de costas para nossas neuras metropolitanas.

O Agrishow é o retrato 3 x 4 de como se pode transformar recursos em riquezas. Para todos. A alquimia está na realização de produtos e serviços cada vez melhores, a custos cada vez menores e a preços e ganhos compatíveis. Eis a chave da expansão do mercado interno e da ampliação do mercado externo.

Com o reparo de sempre: ainda não dispomos de uma política agrícola digna do nome para deixar rolar esta que é a maior vantagem comparativa do Brasil na economia globalizada do século 21. E o que dizer do hiato de produto de 99,9% no berço esplêndido da biodiversidade tropical, a maior do mundo sob uma só bandeira?

Ainda estamos longe de um modelo holístico para a economia rural brasileira. Onde a reforma agrícola, a do mercado, deveria desfrutar do mesmo amparo político concedido à reforma agrária, a do governo. O desafio não está na posse da terra - que pode ser resolvida por decreto. Está no desfrute dela e na operação do mercado a partir dela. Mercado de fornecedores pela porteira dos fundos e mercado de processadores pela porteira da frente.

Ou como suspira o ministro Roberto Rodrigues, que é do ramo: ainda não dispomos de um padrão de financiamento adequado, de um seguro rural equivalente, de um contrato a futuro expandido, de uma pesquisa tecnológica assistida, de uma difusão de conhecimentos extensiva, de um arcabouço institucional maturado.

Faz-se o PIB rural na raça, no grito, no risco e no tranco. Com cadeias de valor, dentro dele, erguendo-se do chão puxando os próprios cabelos.

SECOS & MOLHADOS

Essencial

Americanos e europeus tornaram-se poderosos no século 20 porque sempre dispensaram à economia rural um tratamento diferenciado e favorecido. Tão favorecido e diferenciado que passa agora a ser contestado pelo restante do mundo, Brasil à frente, no rodapé da Organização Mundial do Comércio (OMC).

Supérfluo

Ora, se o Brasil lidera a passeata global contra o protecionismo agrícola dos países ricos, por que continuar tratando o agronegócio brasileiro como supérfluo? Nos tributos, nos encargos, nos créditos, nos seguros, nas pesquisas e nos serviços de infra-estrutura e logística, ainda tratamos o campo como atividade econômica de terceira classe.

Até quando?

Em tempo de reformismo retórico, vale lembrar que a carga fiscal amoitada na panela do povo é de 32,4% na média dos produtos industrializados. E que a massa de crédito rural ofertada mal passa hoje de um décimo do PIB agrícola total. Lá fora, até 100% do PIB rural.

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