JOELMIR BETING
''O maior medo de quem navega é o medo de não poder partir.''
Amyr Klink, navegador-solo
De volta ao planeta
Por onde anda George Soros? Ele escreveu em outubro que um governo Lula levaria o Brasil ao calote no mais tardar em março. Na melhor das hipóteses, um governo Lula só conseguiria restabelecer o crédito externo propondo aos investidores ressabiados rendimentos de até 25% ao ano. Combinados?
Pois o governo Lula completou ontem seu primeiro terço do ano bebemorando algo mais que a volta do Brasil à captação externa da véspera - também a uma demanda lá fora quase dez vezes maior que a oferta. Essa primeira emissão, tida como de bom tamanho, era de US$ 750 milhões. A demanda chegou a US$ 7,3 bilhões.
Vai daí que o rendimento ajustado pelo frenético leilão não foi além de 10,70% ao ano, abaixo da própria taxa ofertada, de 10,75%. O Tesouro Nacional aproveitou a ''extraordinária receptividade'' e espichou a emissão para US$ 1 bilhão, redondão. Os novos títulos vencem só em janeiro de 2007, mas entram no caixa de nossas reservas internacionais nesta próxima terça-feira, dia 6.
E não menos importante: galhardamente, o governo Lula encaixou nesta sua primeira emissão a polêmica Cláusula de Ação Coletiva (CAC), nem sequer ensaiada pelo governo FHC. Por essa cláusula, a maioria qualificada de credores de 85% da emissão assim contratada pode definir uma eventual reestruturação da dívida sem que a minoria de até 15% tenha possibilidade de recorrer à Justiça para embargar a reestruturação assim negociada. Espécie de resseguro moratória.
Também na terça-feira do estrepitoso retorno ao planeta Terra, o Brasil de Lula viu a agência classificadora de riscos do crédito internacional, a Standard & Poors, restaurar de ''negativa'' para ''estável'' a perspectiva de nosso crédito soberano de longo prazo em dólar e/ou em real. Que tal?
E o risco país, vulgo Embi+, timbrado pelo JP Morgan? Este vilão da desestabilização do câmbio já trocou o Efeito Lula do palanque, da ordem de 2.400 pontos, para menos de 890 pontos aqui no Efeito Lula do Palácio. Ou do Palocci. E com o dólar, na mesma reversão, despencando de R$ 3,95 para perto de R$ 2,90.
Praticamente empatado com a taxa mediana de 2002. Esta, com bolha e tudo, contentou-se com R$ 2,94.
Para 2003, o mercado de bancos e de fundos projeta dólar a R$ 3,44 lá na ponta de 30 de dezembro, último dia financeiro do ano. Algo a ver com alguma mediana de janeiro a dezembro pelo eixo de R$ 3,33 (para memorizar melhor o chute em bloco). Praticamente do mesmo tamanho da desvalorização do real aqui dentro por um provável IPCA de 12,5% (repeteco de 2002). Ou até mesmo por um IGP-M esperado de 15,5% (metade do tranco de 2002).
Moral da história: o mundo não acabou nem pra lá de Bagdá nem pra cá do Amapá. Exceto para os que foram banidos do mercado pelos fabricantes da crise que não houve. Até porque nem seria preciso um Lula pintado por um Soros para cometer o estrago do ano passado. Ou, como nos ensinava James Tobim: basta a expectativa da crise para provocar a crise que sanciona a expectativa - independentemente do aborto ou não da causa da crise anunciada.
SECOS & MOLHADOS
Avaliação 1
O governo Lula entra hoje no segundo terço do primeiro ano desfilando a blindagem política de uma aprovação coletiva igualmente não imaginada para esta altura do calendário. Traduzido por ''ótimo'' e ''bom'', o índice de aprovação popular está em 51% no Ibope e em 43% no DataFolha.
Avaliação 2
Curiosamente, a aprovação ainda maior emerge pelo lado dos empresários da indústria e do comércio. Pesquisa do jornal Valor, publicada ontem, revela que ''ótimo'' e ''bom'' para o governo Lula somam 76% na indústria, 66% no comércio e 68% nos serviços.
Avaliação 3
Na mesma pesquisa, com executivos das 144 maiores empresas privadas do País, o dado contraditório: a retomada sustentável do crescimento do governo Lula é aposta de apenas 16,7% dos entrevistados. Até porque eles não acreditam em refresco no arrocho monetário nem em alívio no garrote tributário.
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