''Sempre tivemos encargos elevados com salários achatados. As empresas pagam muito e os empregados ganham pouco.''
José Pastore, sociólogo



Esperar é preciso

No primeiro Dia do Trabalho do governo do Partido dos Trabalhadores, a esperança vai ter de vencer o arremedo. O arremedo do salário mínimo real corrigido agora em abril a quase zero em seu poder de compra. O arremedo de um terço já perdido do primeiro ano do governo Lula para a solene promessa eleitoral da ampliação de 2,5 milhões de empregos por ano.

O reajuste nominal de 20% do salário mínimo mal cobriu no acumulado de um ano a carestia de 17,4% medida pelo Dieese. Quando o candidato Lula se comprometeu no palanque em dobrar o salário mínimo no Palácio, em quatro anos de governo Lula, ele deve ter colocado todas as suas fichas numa radical reforma do Estado brasileiro.

Sim, porque o salário mínimo aviltado há décadas tem sido calibrado, não pela capacidade de pagamento do setor privado, o selvagem, mas pela incapacidade de pagamento do setor público, o intocável. Incluído o estelionato atuarial da Previdência do setor privado (com sua massa de contribuição devorada em quase metade pelos benefícios pagos a menos de um quinto dos segurados, os do setor público).

Ocorre que a justiça salomônica de um piso salarial do setor privado descolado de um piso salarial do setor público (e a salvo do indexador do sistema previdenciário iníquo e falido) seria rechaçada em passeata como a maior de todas as heresias do ''modelo neoliberal que aí está''. O justo e o certo é continuar submetendo milhões de brasileiros no trabalho formal e/ou informal a um salário mínimo situado no limite da sobrevivência biológica da família.

Quanto ao emprego, a verificação acaciana de sempre: a oferta de trabalho remunerado, com ou sem registro em carteira, é um fator condicionado e não um fator condicionante da atividade econômica.

Infelizmente. A oferta maior depende de avanços sustentáveis na renda real da população como um todo: maior a renda, maior o consumo, maior o mercado, maior a produção, maior o emprego, maior a renda...

Para este Dia do Trabalho, o presidente Lula, o operário, tem de desconversar sobre o mínimo e sobre o emprego. Não deu sequer para centralizar a celebração do Primeiro de Maio no lançamento oficial já protelado do Programa do Primeiro Emprego. Igualmente não haverá discurso adequado para a defesa das propostas de seu governo para a reforma previdenciária e muito menos para a reforma trabalhista. No terreno sindical, não. E o que dizer da manutenção e/ou ampliação do arrocho monetário e do garrote tributário, ''herança maldita'' da Era FHC?

Arrocho e garrote que têm quase tudo a ver com as curvas sinistras do emprego e da renda, segundo o Dieese. De 1995 a 2002, o desemprego na região metropolitana de São Paulo escalou de menos 13% para mais de 19%. E a renda nominal média do trabalho adernou de R$ 1.241 por mês para R$ 851. Tombo de quase 30%. No período, a inflação medida pelo IPCA acumulou 100,7%.

Secos & Molhados

Em greve

O primeiro Dia do Trabalho do governo do PT também contabiliza o desconforto político de greves tópicas já deflagradas por sindicatos da CUT - que não se diz apêndice sindical do partido. Além da articulação de paralisações em cascata de servidores públicos federais, estaduais e municipais - capital político da CUT e ativo eleitoral do PT.

No gatilho

Lideranças sindicais ensaiam um transtorno ainda maior para o governo petista: a luta pela reindexação salarial em lei, com a reinvenção do ''gatilho inflacionário''. Um gatilho para uma garrucha de dois canos: um deles, voltado para a cabeça do próprio atirador. O gatilho é reator da inflação. Já vimos esse filme de horror.

Complicador

A atual efervescência sindical guarda relação não apenas com a agenda trabalhista de briga e de sempre. Também com um protesto político contra ''a manutenção de uma política econômica pró-mercado''. Além, claro, da tentativa da Força Sindical de ocupar vácuos de uma CUT agora politicamente constrangida.

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