''A taxa de câmbio é altamente perecível. Quanto mais congelada, mais apodrece.''
Milton Friedman, Prêmio Nobel de Economia


A ata não desata

Só no Brasil membros do governo discutem em público a conveniência ou não de uma ou outra mexida a futuro na política cambial. Tanto mais em regime de câmbio flutuante, que nunca perde a mania de flutuar. Essa discussão a portas abertas não é exercício de transparência. É traço de ingenuidade. Ou de irresponsabilidade.

Igualmente considero uma sandice de gestão o circo montado pelo Copom, a cavalo da Selic. O aviso prévio com data marcada para recalibragem (ou não) da taxa básica de juros não é alvará de autenticidade da autoridade monetária. É munição gratuita para um mercado financeiro especulativo por vocação, natureza e necessidade.

Clonado do Fed americano, o modelito do Copom enche a bola virtual da mídia. Até parece que o Copom, sigla de Comitê de Política Monetária, do Banco Central, vale por uma assembléia de sábios, com participação de representantes ou observadores da economia real. Sim, tal como se fazia, democraticamente, em plena ditadura militar, com o Conselho Monetário Nacional.

Não. O Copom não deveria passar da primeira sala à direita, no fim do corredor. Local para reuniões e decisões de rotina - a portas fechadas. Sem essa de desfilar no quadrado de grama da mídia para as arquibancadas da vida. Exatamente como aquele palco reservado em campo de futebol para técnicos patéticos, não raro de paletó e gravata, encenarem seu reality show para a televisão.

Antes, cada reunião periódica do Copom esgotava-se no mesmo fim de tarde, logo após o anúncio oficial da canetada transcendental à direita da vírgula. Capaz de monitorar as escolhas de 175 milhões de cidadãos e tripular as decisões de 6 milhões de empresas de todos os níveis, ramos e locais.

Agora, a reunião da Selic, mais importante para a aflição coletiva que reunião do Planalto ou votação do Congresso, só acaba na semana seguinte, com a divulgação da ata da reunião. Ah! A ata.

Ficou convencionado que o texto de 40 linhas e 38 entrelinhas resulta bem mais importante para o tal de mercado que a própria decisão do Copom. Ou como me disse ontem Pedro Paulo Pellicano, da Logshop: ''Estou aguardando a nova ata do Copom pra saber se compro ou não mais quatro caminhões.''

Eis a questão. O Copom gasta 48 horas para discutir o que já está discutido, para avaliar o que já está avaliado e para decidir o que já estava decidido. E, ainda assim, não consegue fechar a ata na mesma noite nem no dia posterior. A ingente tarefa fica para a semana seguinte. Até parece que os termos da ata não se referem à reunião pertinente. É como se esses termos pudessem ser ajustados a eventos e inclinações registrados entre a data da reunião e a véspera da divulgação da própria ata.

Esse circo é sério. Afinal, os monetaristas juram por todos os juros que a Selic tem massa crítica para desacelerar o PIB de R$ 1,321 trilhão. Ou para enjaular a inflação que rola na cabeça de cada agente e/ou paciente do mercado livre. O diabo é que a Selic não alcança a massa de preços e tarifas administrados pelo próprio governo. Onde fervilham dois terços do núcleo do IPCA-15. Que acaba de fechar abril com acumulado de 16,74% em 12 meses.

Secos & Molhados

Fora de hora

Quanto ao dólar do dia, o ruidoso ''racha'' no governo e no partido sobre ''interferir ou não nas cotações do mercado livre'' ocorre, não em tempo de ''overshooting'' cambial com ''pass-through'' inflacionário (explosão com repasse), mas em fase de reversão da sinistrose que o próprio partido ajudou a produzir na contagem regressiva para as urnas presidenciais de 2002.

Deixar rolar

Não se discutiu intervenção no câmbio nem mesmo quando o dólar bateu nas traves de R$ 4 - então com alta de 55% em cinco meses. Agora transitando abaixo de R$ 3, o negócio é deixar a cotação ajustar-se livremente por uma ''banda de mercado'' que teria como eixo a chamada taxa efetiva real de equilíbrio.

Que taxa?

Qual seria essa taxa de equilíbrio para maio? Só o mercado, por sua própria conta e risco, é capaz de localizá-la. E não o PT. Agora, se essa taxa real vai ou não encher a bola dos exportadores e esvaziar ou não a bolsa dos consumidores, aí a discussão é meramente futebolística.

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