JOELMIR BETING
''Não existe sucesso que seja definitivo. O que pode ser definitivo é o fracasso.''
William Parcells, escritor americano
O atalho global
A cidade chinesa de Hong Kong, turbinada até 1997 pelo protetorado britânico, é a pérola do capitalismo no rodapé do gigante do comunismo. Até por osmose inercial, a China não trouxe Hong Kong para o comunismo. Hong Kong é que trouxe a China para o capitalismo.
Quer dizer: a eclosão da economia de mercado chinesa, de padrão japonês ou coreano, fora arquitetada década e meia antes pelo livrinho azul de Deng Xiaoping. Mas a anexação contratual de Hong Kong serviu para viabilizar e acelerar a transição da economia então centralmente planificada (ou engessada) do PC chinês para as águas quentes e turvas da globalização a toque de caixa.
Endereço de um terráqueo em cada cinco, a China deu de fabricar e exportar até mesmo borboletas de plástico. E não vacilou em escancarar o sarcófago de Mao para uma invasão do capital transnacional da ordem telúrica de US$ 423 bilhões na década passada. Sim, a China, que ainda é governada por comunistas históricos, é o país que desfila o maior coeficiente de globalização.
Que o diga o relatório anual da Organização Mundial do Comércio (OMC), da qual a China exibe crachá de novata. Ela precisou de apenas três planos quinquenais para realizar o oitavo PIB do mundo e saltar do quase zero para o altiplano dos cinco maiores países exportadores e dos sete maiores importadores.
Nas vendas externas, a China embarcou US$ 326 bilhões no ano passado. Ela já responde por 5,1% do comércio mundial - com impulso de banguela para ultrapassar a França agora em 2003 e fungar no cangote do Japão até 2005. Se entrarem na fatura as exportações de Hong Kong, de US$ 138 bilhões, aí a China já está na terceira posição do pódio da OMC, à frente do Japão (com US$ 416 bilhões).
A obsessão exportadora de Pequim tem tudo a ver com o dinamismo excepcional de sua economia ainda desajeitada e sem treino. Ela cresce, desde 1989, pela média anual de 7,1%. O que significa duplicar o PIB a cada dez anos.
Enquanto isso, cá por estes brasis, ainda rola o ranço do modelo cepalista da economia interna protegida, de baixa eficiência, geradora ainda hoje de empregos ruins com salários péssimos. Um modelo centrado na ocupação excludente do mercado interno ainda por fazer, com fixação na substituição de importações (a qualquer custo). E com as exportações tendo um papel subalterno de mero cano de escape para ciclos de depressão interna.
Resultado: o Brasil exporta pouco mais de um terço de Hong Kong, cidade menor que a do Rio de Janeiro. No ranking da OMC, já baixamos a bola murcha do 23º para 26º lugar. Nossa fatia no mercado mundial decresceu de 1,2% para 0,9%. Estamos embarcando nada além de 13% do PIB (de US$ 449 bilhões em 2002). Desempenho digno da nossa melancólica posição no Relatório IMD da competitividade mundial. Na listagem dos 40 maiores países emergentes, pastamos o 35º lugar.
Sem mistério. Para a escola cepalista, mercado interno e mercado externo são alternativos. Para a tigrada asiática, eles são aditivos.
Secos & Molhados
Trombada
De baixa apetência para as duras lides do mercado externo, a economia brasileira entra em contagem regressiva para uma violenta trombada no meio da pista expressa da globalização. A colisão frontal da anta brasileira com a águia americana. Não temos musculação sequer institucional para tamanha refrega.
Covardia
Na ignição da Alca, com aviso prévio e data marcada, a economia brasileira vai simplesmente disputar espaço (aqui, ali e acolá) com a economia mais poderosa e mais competitiva da História. Será que um Japão, segunda potência, e uma Alemanha, terceira potência, aguentariam essa mesma queda-de-braço?
Anexação?
No palanque, o candidato Lula orquestrou o coro contra a gestação da Alca: ''Não vai ser integração coisa alguma. Vai ser uma anexação pura e simples.'' No Palácio, o presidente Lula já descobriu onde mora o perigo da anexação: na postergação das reformas talhadas para a redução do custo Brasil.
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