''Sim, o Brasil já tem política industrial. Ela atende pelo nome de guerra fiscal.'' Henrique Mugnaini, empresário

Um plano de vôo

O planejamento estratégico da economia brasileira é uma estrela petista de cinco pontas: o que fazer, como fazer, onde fazer, quanto fazer e quando fazer. O plano de vôo para 2004/2010 será discutido hoje, em Brasília, no seminário ''A Nova Agenda do Desenvolvimento'', organizado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), do Ministério do Planejamento.

O encontro pega carona na recente amarração do Plano Plurianual de Investimentos e carrega nas tintas de uma modelagem adequada para o setor industrial brasileiro. A ordem é desenvolver a musculação das fábricas nacionais para as futuras batalhas do mercado global, aqui dentro e lá fora.

Em exame, uma política industrial horizontal casada com políticas setoriais ou verticais. Com a ressalva de sempre: a indústria não é uma ilha. Ela depende de pesados investimentos (estatais e/ou privados) na infra-estrutura econômica. Ela não dispensa programas realistas e tempestivos na infra-estrutura social. Ela exige políticas concretas de inovação tecnológica. Ela se tornou refém de escolhas e de práticas de desenvolvimento sustentável. Ela não pode abrir mão da vocação empreendedora (até aqui desencorajada) dos brasileiros.

Sem que se perca de vista o novo paradigma da nova economia. A maior riqueza de um país, reator de sua competitividade econômica e de sua realização social, está na capacitação de seus recursos humanos em habitação, saneamento, saúde, alimentação, educação, segurança, trabalho e liberdade. Nunca se valorizou tanto o capital humano no processo produtivo, começando pelos países já desenvolvidos. Que se desenvolveram a partir disso.

Ora, subordinar o planejamento estratégico da competitividade nacional a um modelo estanque de política industrial, ainda que holístico e desperto, equivale a sustentar que o elefante é uma sucuri, na parábola do cego agarrado à tromba do paquiderme.

O desenvolvimento não é feito por metros, quilos, litros ou cifrões. É feito de gente, por gente e para gente - independentemente da disponibilidade ou não de recursos naturais abundantes ou de decantados potenciais de mercado a futuro.

Uma Agenda do Desenvolvimento, nesta altura do calendário, igualmente não pode desprezar a urgente correção de antigos desvios de rota do arcabouço institucional do Brasil. Não é preciso remover montanhas. São desvios de política monetária anoréxica, de aparelho tributário perverso, de diploma trabalhista anacrônico, de ambiente regulatório anedótico, de máquina estatal parasitária, de ganância privada diabólica, de informalidade criminosa e impune, de insegurança coletiva rompante, de desigualdade social desumana...

Uf! Não é fácil modelar o Brasil que pode ser feito, ainda que bem distante do Brasil que deveria ser feito. Se nossos meios ainda são escassos para nossas metas, cuidemos simplesmente de fazer com que cada real passe a cumprir o trabalho de um real e não mais de 50 centavos. Nossa secular cultura da abundância aflora hoje em nossa síndrome do desperdício - de terra, de mata, de água, de energia, de sossego e, sobretudo, de gente.

Que Deus ilumine os cenaristas e os planejadores do Ipea. Projetemos e façamos o Brasil que pode ser feito - e bem-feito, se possível.

Secos & Molhados

Lição de casa - O governo Lula parte com o pé direito para o planejamento estratégico do País. Está seriamente comprometido com o ajuste fiscal severo e impopular, sem o qual ficaríamos enxugando gelo com toalha quente. Sim, porque um governo que não se governa nem se deixa governar não tem como planejar, executar e governar coisa alguma.

Pegou no tranco - Sem plano, sem meta e sem meio, a economia brasileira acumula 12 anos de modernização continuada. Processo desencadeado pelo choque de competição externa a partir da ''collorstroika'' de 1990/92. De lá para cá, estamos realizando produtos e serviços cada vez melhores a custos e preços menores.

Tiro no pé - Décadas a fio de mercados internos protegidos e cartoriais, de padrão cepalista, condenaram-nos a uma economia de baixa eficiência, geradora ainda hoje de empregos ruins com salários péssimos. Boas intenções não garantem bons resultados.

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