JOELMIR BETING
''Quando a política econômica resolve o problema maior, ela engrandece, automaticamente, o problema menor.''
Alvin Hansen (1887-1978), em ''Prosperity and Depression''
De Copom em Copom
Inimigo público histórico número um da política monetária dita neoliberal, subordinada ao mercado e monitorada pelo FMI, o PT não tem palavras para explicar e muito menos justificar um governo Lula pespegando um arrocho monetário maior que o do governo FHC. A taxa básica de juros não precisou nem de um primeiro trimestre para saltitar para 26,50% ao ano.
Ainda antes do segundo turno, risco Brasil cravando 2.400 pontos e dólar batendo em R$ 3,95, o favorito Lula fez comício em Belo Horizonte e não deixou barato: ''Este país não aguenta mais continuar pagando mais juros aos banqueiros e menos salários aos trabalhadores.''
Bem, a elevação da Taxa Selic no governo Lula tem uma exposição de motivos recorrente e conivente: é para travar a alta do consumo, a alta da produção, a alta do emprego, a alta da carestia, a alta do dólar, a alta do risco Brasil, a alta do risco Bush, a alta da gasolina, a alta da energia, a alta do ônibus, a alta do medo...
E tome a overdose de um mal desnecessário para um Brasil que já arrosta há duas décadas, desde a ''debt crisis'' de 1983, o crédito bancário mais curto e mais caro do mundo. E onde a exclusão bancária alastra-se pela economia real no processo silencioso de ''desbancarização'' do capital de giro das empresas - que se autofinanciam dentro de cada cadeia produtiva. E onde os consumidores movidos a crediário empenham um terço da renda familiar na conta de juros. O cheque especial já custa 234% ao ano.
E o que dizer do próprio governo, devedor maior, que tem na massa de juros extraída da dívida pública algo parecido com 7,5% do PIB? Por que a partitura de transparência do Copom não divulga a variação mensal do serviço da dívida? Afinal, juros são custos financeiros que disputam recursos escassos com orçamentos da saúde, da educação, da segurança, do Fome Zero.
Pois hoje é dia de decisão do Copom, o Comitê de Política Monetária do Banco Central, sobre o que fazer com a Selic de 26,50%. Decisão com direito a manchetes nos telejornais da noite e nos jornais de amanhã.
A coisa virou loteria vestida de derivativo financeiro. As apostas de hoje transitam em quatro raias: 1) manutenção da Selic em 26,50%, sem remoção do viés de alta; 2) manutenção da Selic, com abandono do viés de alta; c) elevação da Selic em 0,25, em 0,50, em 0,75 ou em 1 ponto porcentual; d) redução da Selic em 0,25 ou em 0,50 ponto porcentual.
Única certeza: o risco Brasil está em queda, o risco Lula evaporou, o ajuste fiscal tornou-se ainda mais severo, o dólar perdeu a crista, o petróleo não explodiu e o Saddam já sumiu. Ah! A inflação medida pelo IPCA acaba de trocar o aclive pelo declive. Ela baixou de 1,57% em fevereiro para 1,23% em março, com pinta de 0,95% aqui em abril. Ela acumula 16,6% nos últimos 12 meses e está estimada pelo próprio mercado financeiro em 9,1% para os próximos 12 meses.
Afinal, quem tem medo do Brasil? O Copom?
Secos & Molhados
Esquizofrenia - O problema é que se armou um circo esquizofrênico para cada reunião do Copom, com aviso prévio. Parece aquele quadrado de grama que pintaram na lateral dos campos de futebol. Nesse palco, dois esbravejantes técnicos encenam um realityshow patético para a televisão. O que só atrapalha o desempenho dos respectivos times.
Fantasia - Não é para menos. As tribunas e as arquibancadas do jogo do mercado financeiro acreditam, bovinamente, que a Selic tem massa crítica para, com qualquer mexida à direita da vírgula, regular para cima ou para baixo as escolhas de 130 milhões de consumidores inseguros e as decisões de 6 milhões de empresários ressabiados. Será mesmo?
Assimetria - No mais, é o que se sabe. Alta da Selic na base eleva os juros na ponta no mais tardar em três dias. Baixa da Selic na base só reduz os juros na ponta em três meses. Ou nunca.
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