''Será que seremos um povo sem país? Pois já somos um país sem nação.''
Tomás Eloy Martinez, escritor argentino

No fundo do poço

Os argentinos prometem grande abstenção nas urnas de 27 de abril, a do primeiro turno da sucessão presidencial. E devotam pouca atração para a decisão já praticamente transferida para o segundo turno de 18 de maio. Dizem que se juntar os cinco principais candidatos não vai dar para remontar nem meio.

Esse desalento coletivo em relação ao processo eleitoral é tanto mais grave quando se atenta para a biografia suculenta de um povo extremamente politizado. Não bastasse a pequenez das candidaturas depuradas, dois em cada três argentinos desconfiam que haverá fraude bushiana na apuração do primeiro turno. Pois três dos cinco principais candidatos dizem temer a mesma coisa...

A desconfiança quanto à lisura da votação e da contagem emana de um fato não menos inusitado: o empate técnico entre quatro candidatos de ponta, todos nivelados por baixo. Sim, no rodapé de uma banda de intenção de voto que vai de 13% a 16% e nada além disso. Ou se preferem: nenhum dos candidatos logrou até agora escapulir de uma rejeição nacional da ordem de 84%.

A revista ''Notícias'', principal publicação semanal, deu em texto de capa a seguinte explicação: ''Teremos de escolher entre (a) um ex-presidente que faliu o país: b) um ex-ministro que não aguentou duas semanas no cargo: c) um governador inexpressivo e inconsistente; d) um peronista que fugiu do trono depois de sete dias de governo; e) uma senhora que não sabe governar nem a própria casa.'' Vixe!

Pela ordem: Carlos Menem, Ricardo Murphy, Nestor Kirchner; Adolfo Rodriguez Saá e Elisa Corrió. No grifo do analista político James Nielsen: é a primeira vez que um mesmo partido, o Justicialista, posseiro do peronismo, entra com três cavalos no mesmo páreo: Menem, Kirchner e Saá. Pode? Merece um verbete no ''The Guiness Book of the Records''.

Uma nação perplexa. No político, no econômico e no social, os argentinos deram de irrigar com as próprias lágrimas um enorme complexo de inferioridade, vulgo baixa-estima nacional. Alguém imaginaria isso cá por estes brasis igualmente em transe?

Não é para menos. Os indicadores econômicos e sociais são dignos de um Iraque pós-Saddam. Ano passado, a economia declinou 11% e a carestia escalou 41%. O desemprego flutua acima de 25%. A renda de quem trabalha desfila erosão de 17% em poder de compra nos últimos 24 meses. O salário médio, em março, era de US$ 153. A redolarização informal alastra-se pela economia e pela sociedade, aumentando a aflição dos aflitos: metade da população, a do MSD - Movimento dos Sem-Dólar.

Pesquisa do Instituto Siempro revela que 18,4 milhões de argentinos já vegetam abaixo da linha da pureza. Dos quais, 7,8 milhões na categoria de indigentes. Dois terços, com menos de 18 anos. Em 1990, a linha da pobreza hospedava 12%. Agora, 52%.

A escolha acabrunhada de um novo presidente, em 18 de maio, não tem munição nem tutano para reverter coisa alguma. Nenhum dos candidatos tem plano de salvação nacional. Mesmo porque, diria Millôr Fernandes, um povo que precisa de um salvador nem merece ser salvo.

Secos & Molhados

Sem túnel - Analistas econômicos discutem a existência ou não de alguma luz no fim do túnel. Analistas políticos contentam-se em perguntar: que túnel? Roubaram o túnel. A corrupção resvala para a violência do crime organizado. Com direito a sequestros relâmpagos nas madrugadas da Calle Florida e da La Recoleta.

Reflexão - Estacionado na embaixada em Buenos Aires, o diplomata brasileiro Benoni Belli prefere parafrasear Karl Marx: ''O que se vive aqui na Argentina é a sensação de que a velha ordem morreu e a nova ordem ainda nem nasceu. Nesse limbo da história, emerge o efeito positivo de uma primeira reflexão coletiva sobre a verdadeira identidade nacional.''

Tem saída? - Já que o colapso econômico é o reator da implosão social, o economista Jeffrey Sachs, de Harvard tira da cartola: ''Por exclusão, só há uma saída - a redolarização na base de 3x1.'' Faltou propor: redolarização a partir de uma clonagem declarada da URV brasileira.

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