JOELMIR BETING
''Custa menos a um governante conciliar uma nação que agradar a um partido, começando pelo próprio.''
Benjamin Constant (1767-1830), político francês
E la nave và
Em tempo recorde, o governo Lula redesenha as propostas da reforma previdenciária e da reforma tributária e o maior partido político do Brasil, o da bancada dos governadores, torce o nariz, faz beicinho, mas endossa o formato e o conteúdo das reformas. Condição relevante, ainda que não suficiente, para afrouxar o corredor polonês da Câmara e do Senado, donos da palavra final.
Com esse triunfo político sobre matéria tão abrasiva, o governo Lula é gratificado pela aprovação de bate-pronto do tal de mercado. A bolsa subiu, o dólar caiu, o C-Bond subiu, o risco caiu...
Ocorre que, para onde o risco vai, o juro vai atrás. E tome o círculo virtuoso do mercado financeiro, o rabo que abana o cachorro, ensaiando fortalecer, politicamente, o próprio governo Lula: menor o juro, menor a dívida; menor a dívida, menor o déficit; menor o déficit, menor o risco; menor o risco, menor o juro...
Impressionante a decolagem do governo Lula no terreno minado da gestação das reformas estruturais e institucionais de que o Brasil tanto precisa e pelas quais já gastou década e meia de saliva a troco de nada. Primeiro, porque os impasses políticos são bem maiores que os problemas técnicos. Segundo, porque o partido de Lula, vocacionado para a oposição, jamais engoliu proposta alguma e até mesmo não vacilou em sabotar todas elas (tipo ''não li e não gostei'').
Com exposição de motivos meridiana: o Partido dos Trabalhadores (PT) bem que poderia trocar a razão social para Partido dos Servidores (PS). As corporações estatais predominam nas executivas regionais e nacionais tanto do PT como da CUT. E garantem ao partido a fidelidade (quase) incondicional do maior curral eleitoral do Brasil.
Ora, teria sido natural, politicamente, que o governo Lula empurrasse o encaminhamento das melindrosas mudanças com a barriga do assembleísmo. Houve até uma recente tentativa da bancada paulista de chamar um plebiscito nacional para legitimar penadas de alteração do sistema previdenciário brasileiro.
A cúpula do partido não entrou nessa e o governo Lula acabou indo à luta no primeiro e vitorioso round com a bancada dos 27 governadores. Um plebiscito teria algo mais que um efeito protelatório. Poderia viciar o resultado da consulta popular - contra o encaminhamento da reforma.
Como assim? Pesquisa do ''DataFolha'' revela que só 19% dos brasileiros estão sabendo da existência de uma bomba-relógio no ventre da Previdência. E, para 68% dos prospectados, a reforma não é necessária e muito menos urgente. Em sendo assim, uma campanha plebiscitária no rodapé da ignorância e da indiferença da maioria encheria a bola quadrada do ''Não''.
A sociologia política dos movimentos populares tem a explicação. A pequena minoria dos prejudicados (os servidores) faria um barulho tremendo por sobre a omissão ou a abstenção da grande maioria dos beneficiados (a população). Sim, porque a reforma agora redesenhada não remove, mas comprime a iniquidade jurídica que faz do sistema previdenciário um poderoso reator da desigualdade social no Brasil - endereço da renda mais concentrada do mundo civilizado.
Secos & Molhados
De castas - Para o sistema previdenciário, somos uma sociedade de castas. De dupla estrutura: cidadãos de primeira classe (setor público) e cidadãos de segunda classe (setor privado). Os da casta de cima, menos de um quinto dos segurados, respondem por quatro quintos do déficit total. Irremovível, até prova em contrário.
Na ousadia - A proposta do governo é ousada - no limite político do que pode ser feito, ainda que bem distante do limite técnico do que deveria ser feito. Resta saber se o endosso coletivo dos governadores será clonado pela maioria dos deputados e senadores. Uns e outros doravante chargeados por irados piquetes de servidores.
Mesmo barco - ''Afinal, somos tripulantes do mesmo barco e temos de remar no mesmo compasso e na mesma direção'' - suspirou o presidente Lula. Ao que respirou o governador paulista Geraldo Alckmin: ''Se fazemos parte do problema, temos de fazer parte da solução.''
www.joelmirbeting.com.br
[email protected]





