''Quando o câmbio perde o juízo, passamos a saber o preço de tudo e o valor de nada.''
Richard Stone, Prêmio Nobel de Economia (1984)

Câmbio ótimo?

Os exportadores, arrotando de barriga cheia, preparam-se para comer chocolate amargo nesta Páscoa da reestabilização. Eles começam a chiar contra a ''excessiva apreciação do real'', já abaixo de R$ 3,10 por dólar, com viés para R$ 2,99. Uma revalorização ainda a meio caminho. A bolha cambial de 2002, com pico de R$ 2,95 em outubro, continua parcialmente inflada.

Nos cálculos de Paulo Leme, do Goldman Sachs, o dólar abaixo de R$ 3,10 ainda estaria sobrevalorizado em 25%. É o que garante, segundo ele, uma certa média ponderada pelo comércio exterior, vulgo trade weighted.

A bordo de outra metodologia, Fernando Ferreira, da Global Invest, puxa a série desde julho de 1994 aqui para a ponta de abril de 2003 e decreta: pela evolução dos preços internos na produção ou no atacado (IPA), o dólar deveria estar cotado a R$ 3,35. Mas pela variação dos preços no consumo ou no varejo (IPCA), a taxa de equilíbrio não passaria hoje de R$ 2,62.

Pelo sim, pelo não, o próprio mercado financeiro, auscultado pelo Banco Central na última sexta-feira, prefere projetar dólar a R$ 3,50 na ponta de dezembro. Ou a R$ 3,70 no final de 2004. Algo como descartar algum ''downshooting'' aí pela proa, mantendo-se o patamar do ''overshooting'' produzido pelas atribulações de 2002.

Bola de cristal de lado, os exportadores se perguntam qual seria uma cotação ótima para o câmbio flutuante nesta altura do calendário da reversão das expectativas. Teria de ser cotação suficientemente alta para preservar a competitividade lá fora e suficientemente baixa para não inviabilizar a estabilidade aqui dentro.

Empresários, economistas e consultores chegados ao comércio exterior localizam essa cotação ótima no eixo de uma banda de flutuação que teria R$ 3,50 por teto e R$ 3,10 por piso. Que tal uma taxa mediana, de maio a dezembro, de exatos R$ 3,33? Ano passado, de janeiro a dezembro, a mediana foi de R$ 2,94. Com IPCA projetado para 12,4% pelo mercado, faria sentido.

Essa mediana guardaria neutralidade em relação ao IPCA - o estrago já foi feito. Estaria em sintonia com um déficit externo em conta corrente de US$ 4 bilhões no ano (para um PIB estimado em US$ 455 bilhões). Teria a ver, igualmente, com Selic adernada, entre abril e dezembro, de 26,50% para 22,50%.

Claro, sem perder de vista as condicionantes do mercado cambial propriamente dito. Entre as quais, uma presença afirmativa do Banco Central, ator de mercado em regime de flutuação limpa. Para o consultor Elie Raphael Levy, um governo Lula teria vocação, por exemplo, para a centralização seletiva das operações de remessa pela CC5 (com ágio de 35% na remessa de residentes no país). Seria uma penada menos penosa que a de inundar o mercado com títulos cambiais sob pressão de ''hedge'' especulativo.

Quanto aos contatos incestuosos do câmbio com a Selic, a idéia de Elie Raphael Levy não é menos abrasiva: 1) o limite superior da Selic já foi testado para juros, preços, negócios e empregos; 2) que tal ensaiar, pela primeira vez, um limite inferior da taxa básica para testar respostas do IPCA e do PIB? O Fed de Greenspan adotou e mantém o limite inferior (1,75%) e o mundo não acabou por causa disso. Ao contrário, parou de afundar.

SECOS & MOLHADOS

Pela práxis - Os exportadores tarimbados já estão praticando dólar a R$ 3,00 para negociar tabelas de preços com a ilustre clientela lá fora. Nessa taxa, dá para manter poder de briga e margem de lucro. Até porque, dolariza-se também a tabela de preços em real para o mercado interno. Fácil.

Na balança - E os importadores ainda na moita? Metade acha que só voltará ao mercado com a retomada do PIB e não com a inclinação do câmbio. A outra metade jura que um câmbio no declive pesa mais que um PIB no aclive para a retomada das compras lá fora.

No colchão - Sob o guarda-chuva transparente do FMI e deitado em colchão de reservas de quase US$ 44 bilhões, o Banco Central poderia sinalizar para o mercado cambial uma sugestão que teria partido do partido de Lula: (re)comprar dólares abaixo de R$ 3,00 e (re)vender dólares acima de R$ 3,50. Sem grilo.

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