''O que importa não é onde estamos. O que importa é para onde vamos.''
Aldous Huxley (1894-1963), escritor inglês

New York, New York

Entre aspas: ''A mudança mais sutil em Nova York refere-se a algo de que as pessoas não falam mas que está na cabeça de todo mundo. Pela primeira vez em sua história, a cidade sente-se destrutível. Uma simples revoada de aviões pode rapidamente acabar com esta ilha da fantasia, queimando suas torres, derrubando suas pontes e transformando galerias de metrô em crematórios para milhões.''

E mais: ''A suspeita da mortalidade passa a fazer parte da vida de Nova York, seja no ronco dos jatos sobre nossas cabeças, seja nas manchetes pretas da última edição. Todos os nova-iorquinos precisam conviver agora com essa sinistra possibilidade de aniquilação sem aviso prévio. Devido à concentração da própria metrópole, Nova York tem, dentre todos os alvos americanos, uma clara prioridade. Na mente de qualquer pervertido que enlouqueça, Manhattan deve exalar um encanto irresistível.''

E ainda: ''Foi-se o tempo em que a estátua da Liberdade era o farol da vida para o mundo inteiro. Ela passa a dividir esse papel com a Morte amoitada no enigma de pedra e aço que se tornou um espaçoso alvo a céu aberto. Algo que se projeta rumo às nuvens para encontrar-se, a meio caminho, com os aviões que podem destruí-la. Capital do mundo, capital de tudo e capital de todos, ela deve ser o endereço ideal para o Parlamento da Humanidade, ao lado do East River, hospedar as discussões em todas as línguas para que os aviões permaneçam em terra e que sua missão assassina, em qualquer tempo ou lugar, seja abortada.''

Concluindo: ''A dois quarteirões do East River, há um velho salgueiro que se impõe sobre um jardim. Uma árvore estropiada pelo tempo, hoje mantida de pé por fios de arame - mas muito amada por todos que a conhecem. De certa forma, ela simboliza Nova York. Sobrevive a tudo que lhe é hostil. Despeja seiva em meio ao concreto. E nunca deixa de buscar o sol. Pois sempre que a observo de perto e desfruto a sombra fria de sua copa, penso comigo: esta árvore precisa ser salva. Se ela morrer, tudo morrerá.''

Trechos finais do livro Here is New York, de autoria do jornalista americano E.B. White, ensaísta da revista The New Yorker. Primeira edição em português, de 2002, da Editora José Olympio, com tradução de Ruy Castro. Atenção para o detalhe: o autor E.B. White, morto em 1985, aos 86 anos de idade, escreveu Here is New York em agosto de 1948, quase 55 anos atrás. Que tal?

Nada a ver com os horrores de 11 de setembro de 2001, certo? Ou será que não? O braço oculto do terror acaba de ser reconvocado pela extirpação cirúrgica da tirania de Saddam dos desertos oleosos do Iraque. Ao tempo em que o ''Tratamento Rumsfeld'', Bagdá ainda fumegando, elege a Síria como a nova bola da vez da ''pax americana'' sem fronteira nem bandeira.

O próprio E.B. White deixou anotado no prefácio da primeira edição: ''A febre característica de Nova York não se altera no tempo. Com isso, não me preocupo em revisar o texto para atualizá-lo em futuras edições da Harper, se as houver. Sinto que será obrigação do leitor, não do autor, atualizar-se sobre Nova York.''

Secos & Molhados

Medo maior

Depois da tempestade, vem a inundação. Nova York do WTC sente-se vingada com a derrubada dominó do Talebã no Afeganistão e de Saddam no Iraque? Não. Os nova-iorquinos sentem-se mais que nunca ameaçados por novos atentados do terrorismo organizado e suicida - tão inestancável dentro dos Estados Unidos como o poder de fogo dos Estados Unidos em terras alheias.

Quarta guerra

James Woolsey, ex-diretor da CIA, disse ao Financial Times que, enterrada a guerra fria, a terceira, ''está começando a Quarta Guerra Mundial'' a do terrorismo agora politicamente legitimado que ataca das sombras e às sombras retorna. Ileso. E o palco dessa nova guerra não está nos desertos remotos. Está em Nova York. Ou Washington. Ou Londres.

Vivo ou morto?

Enquanto isso, o consultor Gustav Lindstrom, do Instituto de Segurança da União Européia, desanca Rumsfeld: ''Deixar escapar o mulá Omar, chefe do Talebã, foi uma distração. Não deitar a mão em Bin Laden, dono da Al--Qaeda, é uma burrice. E não localizar Saddam, bem, aí já é palhaçada.''

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