JOELMIR BETING
''Lula é algo mais que a estrela do partido. Virou estrela do mundo. Não existe líder mais admirado hoje que ele na cena internacional.''
Rubens Ricupero, secretário-geral da Unctad/ONU
Erguendo a crista
Lula no G-8 e Cafu na ONU. O presidente da República acaba de ser convidado para a próxima reunião do G-8, na primeira semana de junho, em Evian, França. E o capitão do penta, titular da Roma, deve ser nomeado embaixador da ONU para a campanha mundial de combate a ''moradias precárias''.
Brasil falando para o mundo. O presidente Lula desfruta de muita credibilidade lá fora. Algo parecido com sua popularidade aqui dentro. Ele se apresenta, diz o diplomata Rubens Ricupero, como líder natural do planeta dos emergentes e submergentes. O convite do G-8, tal como os reiterados elogios do FMI, neste fim de semana, demonstra isso. Clube fechado dos ricos, o G-8 reúne as sete maiores economias do mundo, com a Rússia de contrapeso.
Moscou ampliou o G-7 para G-8, não pela sua força econômica (menor que a da Coréia do Sul), mas pela sua biografia soviética. Traduzida na posse, ainda hoje, de um arsenal nuclear capaz de varrer 11 vezes a vida do planeta Terra. Para que a segunda?
Cafu notabilizou-se no penta da bola por ter erguido a taça do mundo, perante 1,2 bilhão de terráqueos televidentes, com o peito pintado de orgulho: ''100% Jardim Irene''. Ainda hoje um dos distritos mais pobres de São Paulo, o Jardim Irene da infância de Cafu não tinha água nem esgoto, não tinha luz nem asfalto. Só havia uma escola primária e nenhum posto de saúde.
Para o arquiteto italiano Pietro Garau, coordenador da força-tarefa da ONU para assuntos de habitação e saneamento, Cafu pode falar muito bem em nome de 1,6 bilhão de seres humanos desprovidos de um ''hábitat'' digno de gente. E o ''hábitat'' decente é algo mais que um direito humano - é um direito animal. O próprio governo Lula acaba de reabrir os cofres da Caixa Econômica Federal para injetar poupança ociosa no programa da casa popular.
Um Brasil distraído transformado em um Jardim Irene do tamanho de 7,2 milhões de moradias precárias, em espaços urbanos absolutamente degradados e de regeneração praticamente impossível. Foi o que suspirou fundo o mesmo Pietro Garau, semana passada, na enorme favela paulistana de Heliópolis.
No rodapé do G-8, o governo Lula espera acelerar a diplomacia econômica do não-alinhamento político inaugurada pelo governo FHC. Nesta ópera Bush encenada no Iraque, o governo Lula já disse a que veio. Somos pelo multilateralismo pós-queda de muros, de torres e de pontes. E temos massa crítica suficiente para liderar os países em desenvolvimento na abrasiva carpintaria de acordos regionais e de tratados globais de comércio de bens, de serviços e de direitos.
Desfrutamos de autoridade moral nessa empreitada, disse ao jornal ''Valor'', de ontem, o jurista Luiz Olavo Baptista, um dos sete juízes do tribunal de apelação da Organização Mundial do Comércio (OMC), em Genebra. ''O Brasil tem imagem positiva na comunidade internacional porque cumpre acordos, respeita tratados e não renega compromissos. O que reforça posições severas do país em todos os contenciosos. Nos quais tem ganho mais casos do que perdido.''
Secos & Molhados
Mata-burros
A ocupação do Iraque começa a dar muita mão-de-obra para a diplomacia político-militar da categoria rosca sem-fim. Virtualmente rachada, a União Européia não tem vez nem voz para vestir a camisa da ONU (que também pouco pesa). A China prefere o bico no toco, enquanto Bush já aponta o dedo em riste para a Coréia do Norte e para a Síria.
Campo minado
Analistas políticos reafirmam que o segundo maior perdedor da guerra no deserto, além da tirania de Saddam, foi o multilateralismo diplomático. Reacende-se a chama do imperialismo unipolar, com direito a ondas encavaladas de antiamericanismo raivoso, com sobras para o terrorismo explícito. Ou legitimado.
Acostamento
Enquanto isso, o professor Marcos Sawaya Jank, da USP, sustenta que não há mais clima para a desgastante negociação da agenda agrícola da OMC. E, sem avanços na OMC, a construção melindrosa da Alca, insistência americana, pode sair para o acostamento de uma eventual resistência brasileira.
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