JOELMIR BETING
''Sempre que o ministro diz que o assunto é complexo, vou logo pegando meu talão e preenchendo o cheque.''
Flávio Rangel (1934-1988), teatrólogo
Cercando frango
Fala-se em pacotaço palaciano aí pela proa para a expansão dos empréstimos, com redução dos juros e extensão dos prazos. Claro, sem reatiçar as lombrigas da inflação de demanda. Até porque jurar que crescimento econômico não dá liga com estabilidade monetária é falta de informação. Ou de imaginação.
Tome-se o exemplo da tigrada asiática. Refeito da cirrose financeira de 1997/98, provocada por um porre de crédito bancário equivalente a 130% do PIB, o megabloco emergente, agora tripulado pelo planeta China, volta a desfilar PIB acima de 7% com IPC abaixo de 7%. Cadê a famigerada inflação de demanda? Eles não estudaram em Chicago e garantem, a quem interessar possa, que esse bicho não passa de um dragão de papel.
Resta saber o que seria um pacotaço monetário na linha do que Armínio Fraga, então presidente do Banco Central, já suspirava em outubro de 1999: ''Temos de reinventar o crédito bancário no Brasil.''
Crédito bancário para produção, giro e consumo. Ainda hoje abaixo de 25% do PIB - contra 125% na Coréia do Sul (IFF/FMI).
Primeiramente, afrouxo no garrote financeiro não se permite o luxo de passar aviso prévio. O ministro Antônio Palocci tocou nessa brasa na semana passada: ''Será um ajuste técnico necessariamente cauteloso, sobre ser gradualista ou progressivo.''
A estratégia é meridiana: iniciar a melindrosa carpintaria pelo rebaixamento, não do piso (Selic), mas do teto (''spread''). O ''spread'' é a distância que vai do que os bancos pagam aos poupadores na captação dos depósitos ao que os mesmos bancos cobram dos tomadores na aplicação dos recursos.
Com dados cruzados da Anefac, da Serasa e do próprio Bacen, temos que o ''spread'' no primeiro trimestre oscilou de 26% nos empréstimos a pessoas jurídicas até 142% nos financiamentos a pessoas físicas. A estrutura do ''spread'', pela média dos bancos e pela média das linhas em cada banco, esteve assim compartilhada: 36% para os lucros, 21% para os tributos, 18% para os custos e 17% para os riscos.
Nos lucros, nada a fazer. Eles cresceram 89% no ano passado. Sobre quatro estacas: ganhos no câmbio, ganhos na tesouraria, ganhos na intermediação, ganhos na tarifação. Nos tributos, vulgo cunha fiscal, o refresco vai ter de aguardar a reforma tributária.
Mas com pouca apetência política para se baixar carga tributária de bancos quando um governo petista daria preferência a aliviar a barra, preferencialmente, de alimentos e de remédios.
Nos custos, os bancos já fazem a lição de casa não é de hoje. O sistema está informatizado e reestruturado. São bancos sólidos, líquidos e enxutos, como se deve dizer em economês. Talvez haja alguma gordura na ostentação de mercado. E algum vacilo na baixa relação produto/agência.
E, fechando a roda, nos riscos é que são elas. Até que o prêmio médio de 17% embutido no ''spread'' total não é abusivo para uma inadimplência média de 14% na aplicação total. Nota técnica do Bacen revela que, em 2002, os créditos sem retorno somaram R$ 84 bilhões dos R$ 591 bilhões concedidos.
Secos & Molhados
Até quando?
Um regime digno de juros de ponta da ordem de 83% ao ano na média ponderada de bancos e respectivas linhas. A coisa vai de 36% ao ano (linhas vendor) para pessoas jurídicas a 171% (cheque especial) para pessoas físicas. Sem contar sangrias de 210% até 334% ao ano em financeiras do chamado crédito fácil.
No cabresto
O modelo é perverso até para os bancos. Dos depósitos à vista, os bancos obrigam-se a recolher 60% aos congeladores do Banco Central (mais 15% dos depósitos a prazo). Do que sobra para empréstimos ao setor produtivo, 52% estão amarrados por vinculações, contingenciamentos e repasses monitorados.
Na rebarba
Os recursos para aplicação livre não vão além de 41% dos créditos em geral. Os quais representam 61% dos ativos totais. Os outros 39% são drenados para a rolagem da dívida pública.
Pacotaço?
Formato e conteúdo do pacotaço ainda sem data? Amanhã, nesta coluna.
www.joelmirbeting.com.br
[email protected]





