JOELMIR BETING
''O que o Brasil, realmente, mais espera de Brasília? Não é inovação técnica, mas determinação política.''
Mário Henrique Simonsen (1935-1997), economista (em 24/1/90)
Se melhorar, estraga?
Manchete do jornal Valor de ontem: ''Palocci alerta para risco do excesso de otimismo.'' O jornal é sério, o ministro é sério. Todavia, o alerta do ministro, com direito a manchete do jornal, não é sério.
Primeiro: ninguém se lembrou, na sinistrose de 2002, de emitir advertências contra o excesso de pessimismo. Nem o palanque de Lula nem o comício de Serra. Muito menos, o ministro Malan. Havia apenas algumas broncas isoladas contra as agências classificadoras de risco Brasil made in Wall Street. Na verdade, risco Lula.
Segundo: o ministro Antônio Palocci poderia ter feito a releitura de James Tobin antes de alertar as gerais e as arquibancadas da vida nacional para o risco do ''excesso de otimismo''. Prêmio Nobel de Economia, o já saudoso professor Tobin deixou selado: ''O otimismo não funciona. O otimismo nada melhora. Cuidado, porém. O pessimismo funciona. O pessimismo tudo piora.''
Terceiro: até por isso, sejamos otimistas. Na pior das hipóteses, como ensina Woody Allen, o otimista leva sobre o pessimista a vantagem de sofrer só no fim... Ainda que se admita, na análise econômica, a tremenda supremacia dos pessimistas - os únicos que são levados a sério. Ou como disse, também na segunda-feira, entre dois suspiros de tédio, o vice-presidente José Alencar: ''O Brasil não vai tão bem assim.''
Quarto: pelo sim, pelo não, o líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP), da crista de seus 10 milhões de votos, admitiu no mesmo dia: se o dólar continuar em queda, o Banco Central bem que poderia intervir no mercado, travando a baixa. Só faltou sugerir o piso para a intervenção. Algo parecido com R$ 3,00 por dólar?
Quinto: em regime de flutuação cambial, a autoridade monetária não pode abrir mão de seu papel de ''ator de mercado''. Na intervenção sobre o câmbio baixista, no limite da ''excessiva apreciação da moeda nacional'', intervir no mercado é recomprar dólares para engordar reservas (já de US$ 42 bilhões) - entre outras medidas oblíquas de gestão cambial. Na bolha do ano passado, o Banco Central cuidou de desacelerar o ''overshooting'' queimando reservas e irrigando o hedge cambial do mercado.
Sexto: ainda estamos longe de um excesso de otimismo coletivo. O que não nos impede de festejar o fogo amigo do governo Lula na nuca de uma sinistrose nacional que o próprio partido ajudou a produzir. Sinistrose que se repete aqui e ali em declarações do tipo ''herança maldita'' com direito a um Plano B. Você investiria em algo corroído por alguma herança maldita?
Sétimo: ninguém mais otimista, nesta altura do calendário, que o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na mensagem aos brasileiros, o presidente disse que ''sem otimismo exagerado, vamos seguir em frente, com os pés no chão''. Afinal, suspirou ele, ''o mundo todo voltou a acreditar no Brasil''.
Faltou dizer: e os brasileiros também. No centésimo dia do governo Lula, amanhã, o presidente bem que poderia desfraldar um par de números: 51% dos brasileiros classificam o novo governo de ótimo/bom; e, para 83%, o presidente é de confiança.
Secos & Molhados
Câmbio 1 - Fiquemos no câmbio, preço relativo de todos os preços do universo econômico. O conceito do câmbio ótimo é volátil como a flutuação do próprio. Mas economistas e empresários acham que dólar a R$ 3,20 seria de bom tamanho para a mediana deste segundo trimestre. Não fermentaria a inflação aqui dentro nem sabotaria nosso avanço lá fora.
Câmbio 2 - O mercado financeiro, ouvido na sexta-feira pelo Banco Central, prefere projetar o dólar para a ponta de dezembro deste ano: R$ 3,50. E arrisca o palpite para a ponta de dezembro do ano que vem, já na metade do governo Lula: R$ 3,70. Tradução: estabilização do câmbio pelo alto, mas não mais em alta.
Câmbio 3 - O ministro Antônio Palocci encerra o assunto: ''O governo não vai intervir no câmbio. Repito: o governo não vai intervir no câmbio. O câmbio vai continuar em liberdade. E câmbio livre significa simplesmente câmbio livre.''
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