''Programa de estabilização não é estático como pedra. Ele tem de ser produzido diariamente, como um pão.''
Robert Solow, Prêmio Nobel de Economia

Confiar é preciso

Analistas com vocação para cenaristas juram por todos os juros que surtos de euforia do mercado financeiro não refrescam o sufoco da economia real. Ocorre que os mesmos cenaristas vestidos de analistas sustentam que ciclos de pânico do mercado financeiro quebram a espinha da economia real.

Quer dizer: na euforia, o tal de mercado é um clube fechado. No pânico, espalha brasas por tudo quanto é lado. Afinal, o mercado financeiro, agora operando em tempo real e ao redor do mundo todo, desfila ''status'' de usineiro de expectativas e carpinteiro de decisões para todos os agentes do universo econômico. Que o diga o esotérico risco país made in Usa e abusa.

Que o diga, igualmente, a variação dos juros. Quando o governo soergue a taxa na base, vulgo Selic, as taxas na ponta dos empréstimos bancários para produção, giro e consumo precisam de apenas dois dias para a competente correção - para o alto. Quando a mesma Selic recua, aí os mesmos peritos do ramo explicam, candidamente, que a queda na base só produzirá a baixa na ponta em quatro ou cinco meses... O negócio é lucrar na alta repentina e lucrar na baixa retardada.

Esse sadomasoquismo analítico, recheado de álgebra financeira, tem especial predileção pelos mercados tipo bolsa - incluído o câmbio flutuante (que, segundo o presidente Lula, não perde a mania de flutuar). Quando o dólar sobe é falta de credibilidade no Brasil. Quando o dólar desce é espasmo tópico transitório.

No mercado de ações, tanto mais. Quando a bolsa dispara é especulação. Quando a mesma bolsa despenca é ''falta de confiança dos agentes econômicos nos fundamentos da economia em transe''.

Ou seja: em bolsa, seja ela de ações, de moedas, de barris ou de cereais, a alta é sempre frívola; a baixa é sempre técnica.

Nos tratos da inflação, com índices calculados e divulgados semanalmente, a sinistrose que contamina o noticiário econômico não deixa por menos: quando os preços sobem é inflação; quando os mesmos preços baixam é promoção.

Pelo sim, pelo não, desde o exemplar ''governo de transição'' ofertado por FHC, assiste-se a uma reversão das sinistras expectativas do mercado (aqui dentro e lá fora) em relação aos rumos e aos prumos de um governo petista instalado no Palácio do Planalto.

Expectativas sinistras, sim. Na campanha eleitoral, cujas pesquisas de intenção de voto foram transformadas em derivativos financeiros, a raivosa ala esquerda do PT fez da ''ruptura do modelo neoliberal que aí está'' uma solene ameaça. Ela fez o jogo da ala direita da oligarquia política, que não vacilou em fazer da mesma ''ruptura'' uma sibilina calúnia. Os dois lados, nas duas pontas, é que forjaram o voto do medo. Por 2 x 1, o voto da esperança venceu.

A esperança permanece acesa. Para 51% dos brasileiros, Lula faz um governo ótimo/bom. E, para 83%, o presidente é de confiança.

Secos & Molhados

Oscilômetro - A reversão está hoje expressa, de fora para dentro, desde janeiro, na queda até sexta-feira de 35% do risco País e de 9% da cotação do dólar. Ela igualmente transita pela inflação no declive, pelo Ibovespa no aclive e pelo meia-volta volver dos juros no mercado a futuro.

Contramão - O problema é que toda lua-de-mel tem prazo de validade. No primeiro trimestre do governo Lula, a economia continuou andando de lado, o desemprego cresceu, o rendimento real do trabalho regrediu, o crediário ficou ainda mais curto e mais caro, a inadimplência aumentou, o garrote tributário apertou.

Pela ordem - Concede-se ao governo Lula o direito de mostrar serviço a tempo e jeito. Onde? Nas reformas ainda não desenhadas, nos programas sociais ainda não acionados e na ''primeira cara do governo'' ainda em esboço no Plano Plurianual de Investimentos, na Lei de Diretrizes Orçamentárias e no Orçamento Geral da União para 2004. Tudo isso, até agosto.

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