''Nosso maior interesse deveria estar sempre no futuro. Afinal, é lá que passaremos o resto de nossas vidas.''

Karl Wilhelm Humboldt (1767-1835), cientista alemão


Retorno aos eixos

Por que o risco Brasil está em queda, abaixo da barreira sorumbática de 1.000 pontos? E com viés de baixa para o nível de 15 de abril do ano passado, de 750 pontos? Terá o Brasil de Lula dado a volta por cima antes mesmo de completar seus primeiros 100 dias, na próxima quinta-feira?

O chamado risco Brasil (ou risco País) está em queda porque escalou patamares que não deveria ter escalado. Houve exagero anedótico na percepção dos nossos riscos internos e externos - entre os quais, o famigerado efeito eleição, o da mania brasileira de escolher presidente nas urnas a cada quatro anos.

Questão acaciana: o risco está baixando numa boa porque estava subindo à toa. Chegou a transitar pela bitola nigeriana de 2.400 pontos no final de setembro, tendo ultrapassado os 1.500 pontos em meados de julho.

Terceiro maior risco do mundo por quê? Não havia e não há crise bancária - que hoje tira o sono de japoneses, alemães, americanos e argentinos... Houve uma bolha cambial inflada exatamente pela percepção equivocada e disparatada do risco Brasil. Um Brasil sem farra de crédito, sem gandaia fiscal e sem fuzarca política. Ou se preferem: um Brasil sem quebra de estabilização e sem crise de governabilidade. Mas com risco ainda hoje um terço maior que o da Colômbia ou o dobro do do México.

Ah! Culpa da moratória? Que moratória? A moratória externa do governo Sarney, em 1987, seguida de um quase calote interno do governo Collor, em 1990. Houve ruptura de contratos sem aviso prévio em ambos os casos. E num país que não respeita contratos, até o passado se torna imprevisível.

Ora, faltaria perguntar às instituições de ''rating'' made in Usa, classificadoras de riscos alheios sentados nos próprios: se a moratória resulta indelével na biografia de um país movido a rações suplementares de poupança externa, por que um risco México abaixo de 500? Afinal, há um histórico de moratória mexicana em setembro de 1983, com repeteco de moratória mexicana em dezembro de 1994, duas semanas antes da ignição do Nafta.

O problema é que o Brasil que trabalha, que arrisca e que funciona se tornou refém de uma sigla cabalística digna de um míssil com ogiva nuclear apontado para a nuca de Saddam nas ruínas da Babilônia: o Embi+. Que bicho é esse? Sigla de Emerging Markets Bonds Index Plus, usinado minuto a minuto, em escala global, pelo JP Morgan.

Ungido pelo dom divino da ubiquidade online, o Embi+ patrulha em tempo real a distância de mercado entre a taxa de juros paga por títulos do Tesouro americano e as taxas equivalentes honradas pelos 13 maiores países emergentes (Brasil com peso 22 na estrutura do índice).

Caberia ao JP Morgan explicar o inexplicável. Não o Embi+ do Brasil de hoje abaixo de 1.000, mas o Embi+ do Brasil de ontem acima de 2.400. Ou mesmo o Embi+ do Brasil ainda hoje pelo dobro do Embi+ do México.

Secos & Molhados

Reversão 1
A verdade é que o efeito Lula não acabou com o Brasil nem o efeito Bush vai acabar com o mundo. Em plena escalada da guerra do burro contra o louco (o louco emburreceu e o burro enlouqueceu, dando no que já deu), os fundamentos da economia brasileira estão em plena convalescença neste governo Lula.

Reversão 2
A inflação já trocou o aclive pelo declive. O dólar não subiu para R$ 4,00. Ao contrário, está embicado para R$ 3,00. Os juros a futuro não explodiram. Ao contrário, já regrediram. A baciada de reformas não foi para o brejo. Bem ao contrário. Governo e Congresso já estão trabalhando nessa pedreira a quatro mãos.

Reversão 3
No ''front'' externo, nossos créditos não sumiram. Ao contrário, reabriram. O déficit em conta corrente, medida da vulnerabilidade externa, resvala para menos de 1,2% do PIB (abaixo de um terço de 1998). O saldo das reservas cambiais não desandou. Ao contrário, deve ter fechado a semana acima de R$ 42 bilhões. E o petróleo importado não disparou de US$ 35 para US$ 45. Ao contrário, estolou para até US$ 25.

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