''O medo da eleição antecipou severos ajustes em 2002 e vacinou o Brasil contra os efeitos da guerra em 2003''
Nathan Blanche, da consultoria Tendências

Chorando na rampa

Acredite quem puder: porque a Selic subiu 1 ponto porcentual e meio no primeiro trimestre do governo Lula, de 25% para 26,5%, a economia brasileira não mais fechará o ano com expansão anteriormente projetada de 2,8%. Ela terá de se contentar com 2,2%. Ou menos. Abaixo do crescimento da população economicamente ativa, estimado em 2,3%.

Fabuloso o poder de intervenção da taxa básica de juros no nível ou no rumo das atividades econômicas em geral. Será mesmo? E o que dizer da força de dissuasão da mesma Selic no front da guerra santa contra a inflação? Basta uma leve mexida à direita da vírgula e o mundo todo passa a apostar em refluxo da carestia no atacado e no varejo. Será mesmo?

O certo é que a chutometria econômica recheada de álgebra monetária comanda as políticas públicas e monitora as expectativas dos agentes econômicos de Norte a Sul e de Salvador a Corumbá. Para tanto, em exercícios de velocidade suprema, os cenaristas do Banco Central e do próprio sistema financeiro recalibram a cada semana os principais indicadores econômicos esperados para a ponta de 31 de dezembro. E projetam esses mesmos indicadores para toda a travessia do ano que vem...

O problema é que essa bola de cristal levada a sério não dá a mínima ao que pensam, sentem e decidem os homens que de fato fazem a economia respirar e funcionar. No máximo, aqui e ali, já se brinca de sondar a esotérica invenção americana do índice de confiança dos consumidores.

Será que o Banco Central e os bancos privados já tomaram conhecimento da intenção de plantio recorde das lavouras de inverno, no mesmo espaço onde começa a colheita recorde das culturas de verão? Pois o desempenho em cadeia do agronegócio, com ganhos de produção, de produtividade e de renda, tem a ver com efeitos em cascata por sobre pelo menos 30% do PIB verde-amarelo de enjôo.

E mais: a supersafra que penetra no mercado pode bloquear a inflação pelos chifres e pressionar o câmbio para baixo. Ocorre que o tal de ''mercado'', movido a risco Brasil made in Usa, ignora ou despreza os movimentos e inclinações da economia real. De tal sorte, que o sofisma que jura que só a recessão derruba a inflação (que no surto atual não é de demanda) é o mesmo que não vacila em festejar a nova safra recorde do grão.

Mas vamos ao balanço antecipado do primeiro ano do governo Lula. Para o mercado financeiro, o IPCA deve fechar o ano em 12,3% (contra 12,5% em 2002). Mesmo com Selic de 26,5%. Até porque preços e tarifas administrados pelo governo (nos três níveis), fora do alcance da Selic recessiva, têm variação acumulada no ano prevista para 16,8%.

E mais: o IPCA gregoriano de 12,3% (a meta comprometida com o FMI é de 8,5%) está casado nas projeções com a Selic de 26,5%, com o dólar estabilizado pela mediana de R$ 3,50 e com o PIB resfolegando entre 2,2% e 1,8%. Melancólico.

Secos & Molhados

Esquisito - A projeção de um IPCA de 12,3% (para uma meta oficial ainda não abandonada de 8,5%) confunde as gerais e as arquibancadas da vida nacional. Ano passado, o IPCA de 12,5% foi cavado pelo pior dos mundos. Em especial, no terceiro trimestre, antes das urnas. Com risco País cravando 2.400 pontos e com ''overshooting'' cambial de 44% em apenas 100 dias.

No declive - Ora, IPCA de 2003 praticamente no repeteco do IPCA 2002 não dá liga com Selic no alto, com dólar estável, com PIB resfriado. A bolha inflacionária já murchou neste primeiro trimestre de 2003. O IPCA está no declive: de 2,3% em janeiro para 1,6% em fevereiro e provável 0,9% em março.

Elo perdido - Ah! O desvio de rota, mais uma vez, é o do megabloco dos preços e tarifas administrados - pero no mucho. Com correção esperada de 16,8% no ano (já de 7,5% até março, no ventre de um IPCA de 4,8% no período). O índice apartado do mercado livre, o selvagem, está projetado para menos de 7% no ano. Que tal?

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