JOELMIR BETING
''Estão à venda as nossas mercadorias. Nossos princípios não estão à venda.'' Celso Amorim, ministro de Relações Exteriores
Círculos n'água
Caçapa cantada. Esgotou-se o prazo, segunda-feira, 31, para o arredondamento das bolas quadradas do processo de desmanche pactuado e fatiado do protecionismo agrícola dos países ricos - que dificultam o acesso aos respectivos mercados dos produtos de arrimo nacional dos países emergentes, Brasil à frente.
A Organização Mundial do Comércio (OMC) bem que tentou azeitar a carpintaria de um acordo agrícola global entre seus 145 parceiros. As formalidades e as comodidades deveriam ter sido casadas até 31 de março para informar a discussão da abrasiva matéria na assembléia geral da OMC, agendada para setembro, no México.
Deu no que já era esperado: a União Européia rasgou o cronograma e o Japão bateu palmas. Com os Estados Unidos, rompedor confesso do multilateralismo nas relações diplomáticas entre os povos, lavando as mãos, feito Pilatos. Simples: se europeus e japoneses estão com o protecionismo e não abrem, por que fariam os americanos essa abertura? Nem na OMC nem na Alca, of course.
Para europeus e japoneses, a rejeição escapista de um acordo agrícola global tem agora o reforço político do próprio estado de guerra made in USA e abusa. A guerra pode acabar ainda neste semestre. O que não vai cicatrizar tão cedo é a rachadura do proselitismo multilateralista da OMC. Se as negociações multilaterais já eram um sonho de uma noite de inverno, nesta primavera da guerra sem causa na terra dos outros, a carpintaria diplomática da OMC (com sobras para a Alca) sai para o acostamento do isolacionismo de ocasião no rodapé do nacionalismo de sempre.
A própria União Européia se confessa rachada pelo desvario militarista de Bush & Blair. Franceses e alemães, ao contrário de espanhóis e italianos, romperam com o alinhamento automático sob o guarda-chuva militar da Otan. O novo racha europeu tem massa crítica para zerar a chance de um acordo agrícola na OMC - até mesmo para inviabilizar Washington na costura da Alca. Quem tem medo da Alca? Os europeus.
Ao Brasil interessaria a salvação de um futuro acordo agrícola na OMC e, por tabela, na Alca. O protecionismo dos países ricos retira pelo menos um quarto de nossa capacidade de competição no mercado global - nos cálculos de consultores brasileiros. Um protecionismo assentado no tripé: 1) barreiras tarifárias na importação de produtos agrícolas; 2) incentivos fiscais na exportação de produtos agrícolas; 3) subsídios diversos na produção da cadeia do agronegócio nacional.
A barragem do protecionismo, em relação ao valor total do PIB agrícola, é da ordem de 24% nos Estados Unidos, de 47% na União Européia e de 59% no Japão. O que levou até mesmo o diretor-geral do FMI, o alemão Horst Köhler, a suspirar na semana passada: ''O protecionismo agrícola dos europeus é simplesmente ridículo.''
Com resposta de bate-pronto do representante comercial da União Européia, o francês Pascal Lamy: ''Não precisamos de conselhos e muito menos de sermões nos tratos da abertura agrícola com o resto do mundo. Trabalhamos a fundo para fechar uma primeira pauta global até 31 de março. Se não deu certo, há que se manter a cabeça fria.''
Secos & Molhados
Cuca fria - Cabeça fria é o que o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Luiz Fernando Furlan, recomenda aos exportadores brasileiros. Com guerra ou sem guerra, podemos aumentar nossas vendas em 12% este ano. E não há risco de retaliação comercial americana pela nossa posição soberana em defesa da paz em qualquer recanto do mundo.''
Novo ''front'' - O ''export drive'' brasileiro descola-se cada vez mais do mercado americano (rebaixado para menos de um quinto de nossos embarques totais). Estamos alargando espaços no próprio Oriente Médio e entrando em órbita no planeta China. Em 2020, a China de US$ 7,5 trilhões estará importando 600 milhões de toneladas de alimentos.
E a Alca? - O ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, também não esquenta a cabeça: quem está de olho gordo e rútilo na Alca é Washington e não Brasília.
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