JOELMIR BETING
''O Brasil ainda corre o risco muito sério de ficar obsoleto antes de ficar pronto.'' Claude Lévi-Strauss, antropólogo francês
Andando de lado
Anote e guarde: o PIB brasileiro de 2002 foi de exatos US$ 449,3 bilhões. A dólar médio do ano passado, calibrado em R$ 2,94. Em reais, o PIB verde-amarelo de fadiga cravou R$ 1,321 trilhão. Com deflator médio de 8,47%, calculado pelo IBGE. O produto nacional por habitante ficou em US$ 2.577. Ou em R$ 7.576.
No ranking mundial, baixamos nossa crista para o 12.º lugar. Fomos ultrapassados pela Coréia do Sul (US$ 471 bilhões). O México já havia deixado a gente na poeira desde 1999. Ano passado, já membro do Top Ten, o México realizou US$ 634 bilhões. Perdemos a liderança da América Latina, que nos anos 50 tiramos da Argentina.
Nossa derrapada no ranking mundial (dados preliminares) deu-se pela combinação de desvalorização cambial com estagnação econômica. De 1998 a 2002, crescemos pela média de 1,6% ao ano.
No mesmo período, o mundo todo cresceu 3,2% e o bloco dos emergentes, 4,6%. A Coréia do Sul, pós-colapso de 1997, rebrotou com a pilha toda, cravando a média anual de 5,6%.
O que tira nosso sono é justamente a esquálida performance de 1,6% ao ano. Ou 1,5% em 2002. Pelo cheiro da brilhantina, vamos continuar resfolegando abaixo de 2% ao ano. Para o Ipea, a coisa não deve passar de 1,8% em 2003. Abaixo do crescimento da população economicamente ativa (PEA), estimado em 2,3%.
A população como um todo cresce 1,4%. O que equivale a um PIB per capita com variação próxima de zero. Pelo ''pop-clock'' do IBGE, seremos agora em abril exatamente 175 milhões de brasileiros a bordo do Brasil. Em coeficiente demográfico, já somos 5 brasileiros para cada argentino. Ou 58 brasileiros para cada uruguaio.
Sem um solene armistício com o espermatozóide, nosso desafio está em reacelerar as rodas quadradas do PIB. O sonho de uma noite de outono seria recuperar a média anual dos anos 50/70 - da ordem de 7,1%. Pela promessa de palanque, o governo Lula bem que se contentaria com 4% ao ano neste quadriênio 2003/2006. Se o torque ficar abaixo de 2% neste primeiro ano, teria de se situar acima de 6% no último.
O problema é que o processo econômico tem inércia própria. O crescimento sustentado ou duradouro do produto interno bruto guarda relação com as taxas de poupança e de investimento (formação bruta de capital fixo). Na poupança, conta-se com a ração suplementar dos capitais externos de múltis, bancos e fundos. Em se considerando que para um PIB de 4% ao ano se tem de investir o equivalente a 25% do próprio, o negócio é a gente, resignadamente, tirar o cavalo e a égua da chuva.
Por quê? Porque a taxa de investimentos reprodutivos não passou de 18,7% no ano passado (média em torno de 18% no triênio 2000/2002). Porque a taxa de poupança interna para cacifar aquela se contentou com 17,9%. A externa não passou de 0,8%.
Nosso elo perdido está justamente na poupança interna deprimida. Algo a ver com a despoupança do setor público. A da Coréia do Sul flutua acima de 35% do PIB (com 7% do setor público). O que significa crescimento sustentável, com dependência externa nenhuma.
SECOS & MOLHADOS
Sinuca de bico - Não dá para ampliar a poupança interna da noite para o dia. Nem seria conveniente escancarar-se para a poupança externa (de resto, rarefeita e reticente). Zerar a despoupança do setor público seria um expediente ainda mais tortuoso. Teria de aguardar a aprovação e a implementação das reformas ainda encalacradas no Congresso.
Vela no túnel - Há um atalho tipo pinguela para alavancar o PIB atolado: acabar com o mal desnecessário de um crédito bancário curto e caro, abaixo de 26% do PIB. Na Coréia, acima de 120% do PIB (sem inflação). E o que dizer do garrote tributário já acima de 36% do PIB? Na Argentina e no México, abaixo de 20%.
Sem remorso - Os empréstimos para produção e consumo estão encaixando a média de 56,5% ao ano. No cheque especial, capital de giro da classe média, 171,5%. Enquanto isso, o salário real médio não passou de R$ 873 em janeiro. Em 2003, corrigido pelo ICV-Dieese, queda real de 8,2%.
www.joelmirbeting.com.br [email protected]





