JOELMIR BETING
''Há um vácuo de autoridade em escala global. Há vácuos de governo em escala nacional.''
Joseph Nye Jr., ex-subsecretário de Defesa dos EUA
Nem só de barris
Consta que o Iraque estoca reservas cambiais em petrodólares ao redor de US$ 10 bilhões. Um rescaldo para um país que, em 1980, chegou a ostentar acumulação acima de US$ 80 bilhões (a dólar de então). Esse rescaldo mal pagaria metade de velhas compras a fiado de empresas da Rússia, da França e da Alemanha. Ao que parece, calote já consumado de US$ 16,3 bilhões.
O curioso é que o pé-de-meia do Iraque está guardado em Nova York. Ou mais precisamente: na casa-forte do BNP Paribas, em Wall Street. Sim, banco francês. E, não menos bizarro, um ativo em dólar convertido para euro, em novembro de 2000. Com alvará da ONU, gestora do embargo iraquiano desde 1991, remoção cirúrgica das botas de Saddam do petróleo do Kuwait.
Por que em Nova York e não em Paris, se o banco de confiança de Bagdá só podia ser francês? Porque Wall Street é a capital do capital sem bandeira. Ela se revelou segura e esperta em logística financeira global, sobre desfrutar de maior porosidade regulatória.
Por que converter a reserva de dólar para euro? Porque Saddam passou a nutrir alergia por dólar, a moeda do mal, desde que a divisa européia se revelou capaz de igualar em poder de compra a divisa americana. Neste primeiro triênio da conversão (2000/2002), Saddam acertou na mosca: o dólar perdeu 22% para o euro.
Na invasão do Iraque, Washington obteve a adesão física de Londres, mas nem sequer uma adesão política de Paris, Berlim ou Moscou (sem contar o nariz torcido da ONU de fachada). A Rússia também tem reservas em euro aplicadas em bancos alemães, suíços, franceses e ingleses. Ela é credora de US$ 8,2 bilhões em vendas a fiado ao Iraque.
Iraque agredido que hoje alarga fraturas políticas na União Européia. Franceses e alemães não falam a mesma língua.
Espanhóis e italianos tentam deixar a posição subalterna de meros coadjuvantes do bloco. E os ingleses, que fazem coalizão com os americanos na invasão do Iraque, não admitem o euro no lugar da libra. Euro que não esconde a ambição de substituir o dólar no papel virtual de moeda universal.
Há muita coisa para além do petróleo na provável ocupação do Iraque por americanos, com ingleses de contrapeso. O gigante China que o diga. Governo comunista petrificado, Pequim prefere ficar em cima da muralha. No discurso, condena a doutrina Bush do direito da força por sobre a força do direito. No recurso, os chineses exibem seu pragmatismo de milênios. Nada de afrontar a hegemonia americana, que eles consideram meramente transitória no vasto compasso da História.
Nas trocas comerciais com os Estados Unidos, a China festeja superávit de US$ 114 bilhões nos últimos 12 meses. Ela lidera o ranking global da receptação de investimentos diretos das empresas transnacionais. Na geopolítica de farda, a China adoraria que os Estados Unidos, por dissuasão do efeito Iraque, puxassem os pavios das bombas atômicas da Coréia do Norte, do Paquistão e da Índia.
Secos & Molhados
E o Japão? - Gigante econômico em crise e pigmeu político assumido, o Japão renova seu pacifismo estratégico, omitindo-se do debate universal dessa guerra alheia. Na miraculosa ressurreição do pós-guerra, o Japão começou por exportar produtos. Em seguida, deu de exportar fábricas. Doravante, passa a exportar capitais. Precisa estar em paz com todo mundo o tempo todo.
Prioridade - A prioridade diplomática japonesa está na costura de alianças estratégicas. Tóquio tem de estreitar laços com Washington e de instalar laços com Pequim, sem perder simpatias, sinergias e parcerias com o Oriente Médio. De onde recebe dois terços do petróleo que consome.
Escombros - No mais, está todo mundo, Brasil no meio, de olho gordo nos escombros do Iraque. Fala-se em megamercado de reconstrução e ampliação da ordem insana de US$ 115 bilhões. Difícil é remover e consertar os escombros do Direito Internacional nas garras de Estados nacionais moralmente em colapso.
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