''Este mundo só começa a criar juízo quando já está quase tudo perdido.'' François-Marie Aroeut/Voltaire (1694-1778), filósofo francês

Cadê o barril a US$ 50?

O impensável declínio de 30% nas cotações do petróleo, ocorrido na primeira semana da guerra com aviso prévio, jogou areia argilosa nos ventiladores da sinistrose global. Havia vaticínios levados a sério para barris do medo saltando de US$ 35 para US$ 50 ao disparo do primeiro míssil inteligente pero no mucho contra os palácios de Saddam. Pois os mesmos barris adernaram para US$ 25.

O peso do Iraque no mercado global do fedorento fóssil não tem passado de 3% da demanda diária de 78 milhões de barris. A velha plataforma instalada no Iraque tem capacidade para 6 milhões de barris por dia. Mas, por embargos herdados da desastrada invasão do Kuwait, há 12 anos, a oferta iraquiana tem ficado abaixo de 2,5 milhões. Ao lado, a Arábia Saudita escoa 7 milhões e precisa de apenas uma semana para espichar para 10 milhões.

Mercado tipo bolsa, especulativo por natureza e conveniência, o petróleo exala cenários extremamente voláteis. Como se viu no soluço de segunda-feira, as cotações de referência, na Bolsa de Londres, passam a oscilar ao sabor das expectativas de duração do conflito e da proteção ou não dos campos iraquianos contra a sabotagem da queima vingativa de poços, de torres e de oleodutos.

Pelo sim, pelo não, a Opep acaba de decidir em seus tranquilos gabinetes de Viena que não vai aumentar a produção nem reduzir a própria. Mas não vacilará em rebaixar a oferta diária se a cotação londrina do tipo Brent atrever-se a rodar abaixo de US$ 22.
Resumo da ópera Bush: o que vale não é a posição de mercado do Iraque, mas o potencial do Iraque a futuro. Aí, as lombrigas texanas de Bush e de Cheeney entram em convulsão. O Iraque dispõe de 112 bilhões de barris em reservas comprovadas e de outros 108 bilhões em trapas a dimensionar - a custos irrisórios de prospecção. Óleo bruto tipo leve de boa qualidade, a galope melhor logística de escoamento de todo o Oriente Médio.

Um Iraque pós-guerra, sob ocupação anglo-americana, mas já escovado por sondas francesas, espanholas, russas e chinesas, vai ter de contar com investimentos da ordem de US$ 45 bilhões em quatro anos. Primeira fase: reparação dos estragos ainda imprevisíveis da guerra. Segunda fase: modernização do parque petrolífero de há muito sucateado. Terceira fase: ampliação da capacidade de exploração. Fala-se em tiragem firme de 6 milhões de barris por volta de 2010.

As empresas européias, russas e chinesas infiltraram-se no Iraque por baixo dos panos do embargo endossado pela ONU. Tanto nos negócios do petróleo como nas vendas de ''materiais sensíveis''. No bagaço econômico e orçamentário desde a longa guerra a troco de nada com o Irã, Saddam comprou no fiado US$ 4,7 bilhões dos franceses, US$ 3,4 bilhões dos alemães e US$ 8,2 bilhões dos russos.

Resultado: Paris, Berlim e Moscou omitiram-se a favor de Bagdá nas últimas escaramuças diplomáticas com Washington e Londres. Um pacifismo orçado em US$ 16,3 bilhões em faturas a receber. Numa virtual ocupação anglo-americana, empresas russas, alemãs e francesas terão de aguardar no fim da fila dos credores. Dos credores do colapso iraquiano.

Secos & Molhados

Uma fábula - Em sete anos corridos do duplo ''oil-shock'' do petróleo (1974/1980), o Iraque entesourou petrodólares da ordem de US$ 155 bilhões. Reciclados em títulos europeus e americanos, esse maná telúrico chegou a faturar ganhos de até 26% ao ano. Em 1980, o Fed chegou a pagar 21%.

Uma tragédia - Já instalado no poder, Saddam Hussein não pensou em construir um paraíso para 22 milhões de patrícios na época. Preferiu torrar a fortuna sacada da areia na matança mútua pactuada com os aiatolás do Irã. Estes, apoiados pela URSS. Saddam, escorado pelo salão oval da Casa Branca de Reagan. Uma guerra fria de marionetes.

Energívoros - Yes, blood for oil. A guerra durou oito anos e empilhou milhões de cadáveres em ambos os lados do Golfo. Nada mudou de lá para cá. Sociedade energívora, os americanos ainda importam 60% do petróleo que consomem sem moderação. E pelo qual não vacilam em promover conflitos sem remorso em solo alheio.

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