''Tivemos uma eleição fictícia que elegeu um presidente fictício que nos leva a uma guerra de verdade por uma causa fictícia.''
Michael Moore, cineasta americano

O dono do mundo

Enquanto o presidente George Bush, o filho, resolve descolar do Congresso um reforço de guerra de quase US$ 80 bilhões (o dobro do PIB do Iraque), sob os aplausos de sete americanos em cada dez, o historiador Arthur Schlesinger Jr., 86 anos, tira o pijama e rasga o verbo: ''Agora somos nós, os americanos, que vivemos na infâmia.''

Entre aspas: ''Ao nos impor essa guerra, a doutrina Bush nada mais faz que abandonar a diplomacia da contenção e da dissuasão, que nos levou a uma vitória pacífica na guerra fria contra um inimigo realmente ameaçador. Essa nova doutrina da defesa antecipada é infamante. Ela nos iguala ao Japão Imperial de Pearl Harbour.''

E mais: ''Há uma triste suspeita de que estejamos indo à guerra contra o Iraque porque esta é a única guerra que podemos vencer. Não podemos vencer a guerra contra o terrorismo da Al-Qaeda, pois esta ataca das sombras e nas sombras desaparece.''

E ainda: ''Também não poderíamos vencer uma guerra contra a Coréia do Norte porque esta, sim, dispõe de armas nucleares. O perigo coreano é bem maior e mais claro que o risco iraquiano. Ao atribuir à Coréia do Norte um tratamento favorecido, a doutrina Bush incentiva outros Estados fora-da-lei a desenvolver seus arsenais de destruição em massa.''

No mesmo embalo: ''A doutrina Bush é uma capitulação ao militarismo e à arrogância. Ela nos transforma em jurados e em carrascos do mundo. Pior: juízes desmemoriados. Se Saddam é um ditador monstruoso, foi com o apoio dos Estados Unidos que ele trocou atrocidades com o Irã numa guerra que durou oito anos.''

Arthur Schlesinger Jr. faz dele as palavras do presidente John Kennedy, de quem foi assessor especial para assuntos externos. Disse Kennedy, em outubro de 1962: ''Precisamos encarar o fato de que os Estados Unidos não são nem onipotentes nem oniscientes; de que representamos apenas 6% da população mundial e não podemos impor nossa vontade aos outros 94% da humanidade; de que não podemos consertar tudo o que está errado aqui dentro e muito menos lá fora; e de que, portanto, não pode haver uma solução americana para cada problema do mundo.''

Bem, o certo é que o bushismo do direito da força por sobre a força do direito nada tem a ver com os valores de uma sociedade politicamente aberta e culturalmente pródiga. Nem mesmo com os humores de uma sociedade economicamente opulenta e estrategicamente hegemônica. A doutrina belicista de George Bush simplesmente leva ao pé da letra que é pouca e da verba que é muita o preceito cínico de George Orwell, em A Revolução dos Bichos: ''Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais que outros.'' Bush sonha ser o ''Big Brother'' criado pelo próprio Orwell.

Ocorre que não existe um poder multilateral no mundo unipolar da ''pax americana'' pós-queda de muros, de torres e de pontes. No plano político, a ONU não passa de um elefante branco marmorizado na margem do East River. De resto, também ela na mira da Al-Qaeda.

Secos & Molhados

Dinheirama - O governo Bush serve-se das dificuldades da invasão do Iraque para fazer do azedo limão militar uma doce limonada orçamentária. Os gastos anuais com a Defesa Nacional em tempos de paz já passam de US$ 410 por ano. Em nome da guerra tópica sob medida e de seus rescaldos rosca sem-fim, Bush exige mais US$ 80 bilhões nas mesas do Pentágono. Já.

Referência - Outro dia, esta coluna destacou um estudo de Jeffrey Sachs, de Harvard. Pela sua tabela, US$ 80 bilhões para a morte na guerra salvariam da morte na doença nada menos de 35 milhões de africanos hoje irremediavelmente condenados pela aids, pela malária, pela cólera e pela tuberculose. Trinta e cinco milhões!

Comilança - Bush assumiu a Casa Branca com superávit fiscal de US$ 557 bilhões, acumulado por Clinton. Em seu primeiro ano fiscal, Bush resvalou do azul para o vermelho: déficit de US$ 158 bilhões. Neste segundo ano fiscal (que vai até outubro), o déficit já está em US$ 307 bilhões. A bordo da guerra, pode passar de US$ 400 bilhões. Ah! Com redução de impostos para grandes empresas e grandes fortunas.

www.joelmirbeting.com.br
[email protected]

mockup