JOELMIR BETING
''Em política, tudo é permitido. Exceto, deixar-se surpreender.'' Charles Mourras (1868-1952), escritor francês
Os blefes da guerra
Antes: haverá guerra ou não haverá guerra? Agora: será guerra curta ou será guerra longa? Logo mais: Saddam está morto ou Saddam está vivo? Única certeza, por enquanto: a guerra da águia contra a rolinha, com aviso prévio e local demarcado, já estava devidamente ''precificada'' pelos ativos movidos a emoções fortes e pretextos fúteis.
Resultado: as bolsas não desabaram e os barris não explodiram na primeira semana da guerra de um lado só. Bem ao contrário, as bolsas de Wall Street subiram 6,1% (Nasdaq) e 8,4% (Nyse). E os barris do tipo ''Brent'', na Bolsa Internacional do Petróleo, em Londres, abriram a semana acima de US$ 35 e fecharam a própria abaixo de US$ 25. Queda supimpa de 30%.
Descartado o engulho de ontem, o do oscilômetro da duração do conflito com desfecho manjado, o Brasil está ganhando no petróleo alheio que baixou as cristas e no crédito externo que reabriu as burras. A tal ponto que o dólar adernou para R$ 3,40 e o famigerado risco País, vulgo Embi+ do JP Morgan, senhor dos mercados, fechou a temerosa semana do Efeito Guerra no declive de 1.033 pontos. Algo que não ocorria desde junho do ano passado, antes da tenebrosa eclosão do Efeito Lula.
Well, caberia encostar na parede os classificadores de riscos de países e de empresas, refestelados em Nova York e em Londres. A guerra tópica não vai acabar com o mundo nem o governo Lula acabou com o Brasil. Os juízes de ''rating'' é que produziram o pânico da espera. Pelo qual estamos pagando, ainda hoje, a conta estúpida do câmbio do medo, dos juros do medo, da inflação do medo, da paralisia do medo.
Claro, as agências classificadoras de riscos concretos e fictícios não perdem a pose. Elas suspiram um cândido ''erramos'' e fica tudo por isso mesmo. Afinal, a bilionária clientela de suas dicas e de seus chutes não tem alternativa para a navegação de mercados revoltos. Gestores da poupança alheia, os bancos precisam desse ritual esotérico para tranquilizar a velhinha de Filadélfia ou o jardineiro de Liverpool.
O diabo é que ajuizar riscos alheios tornou-se um negócio mui arriscado. As agências estão sob suspeição da Securities and Exchange Comission (SEC), xerife do mercado. Elas igualmente já faíscam nos radares da comissão de investigação do Congresso, montada a partir do escândalo Enron, em novembro de 2001. Agências em conluio com auditorias estariam perpetrando o tal de ''conflito de interesses'', rótulo jurídico ingênuo para manipulações de mercado que afetam o bolso e a vida de milhões.
O Brasil 2002 foi a maior vítima dessa picaretagem global recheada de álgebra financeira. Tem-se a impressão de que elas teriam descontado no rebaixamento preventivo do Brasil os estrondosos fiascos de avaliação de riscos cometidos nas quebradeiras da Ásia e da Rússia (1997/1998), no estouro das bolhas e na implosão das bolsas (2000/2001) e no pipocar das fraudes corporativas made in Usa (2001/2002).
Secos & Molhados
Surpresa - O que importa é a percepção de risco própria de credores, investidores, consultores. A cotação do Brasil já trocou o declive pelo aclive. O governo Lula revelou-se ''uma surpresa'' ao tratar a ''herança maldita'' com overdose de austeridade monetária e de tenacidade orçamentária. Até segunda ordem, a (re)estabilização é o fator condicionante: o crescimento, o fator condicionado.
Noviciado - Ainda no aprendizado de seu 83.º dia de gestão, o governo Lula tem o direito de errar e de vacilar. Até porque, antes de governar o Brasil, ele se obriga a governar o partido - que se pretende um poder paralelo. Afinal, é a primeira vez que temos um governo híbrido patrulhado por um partido digno do nome.
Pepinobrás - A agenda por fazer é trabalho para 12 Hércules. Em especial, as reformas previdenciária, tributária, trabalhista, financeira, judiciária, política. Só. Na lateral, a remodelagem dos setores de base, privatizados no todo ou em parte, com os riscos regulatórios de praxe.
www.joelmirbeting.com.br
[email protected]





