''Brasil, mostra tua cara! Qual é o teu negócio? Qual é o nome do teu sócio?'' Agenor de Miranda Araújo Neto (1957-1990), músico Cazuza

Viés da incerteza

A incerteza é a turbina que aciona e sustenta a alta dos juros, dos custos, dos preços, dos riscos. A incerteza é a genética da volatilidade dos ativos, dos mercados, dos negócios, dos empregos. Então, o Banco Central sai a campo para combater os efeitos da incerteza e - bingo! - realimenta o apetite da própria.

A estréia do viés de alta na taxa básica de juros, mantida em sobrevida de 26,50% ao ano, só faz por aumentar a aflição dos aflitos.

A medida eleva o grau de incerteza do próprio sistema financeiro. Ou pior: de toda a gestão financeira em todos os setores da economia. Na ponta do crediário para consumo, as lojas entraram ontem em estado de alerta laranja. Não há mais espaço para o repasse da alta. Os mutuários estão no bagaço e as vendas a prazo devem fechar este primeiro trimestre cerca de 12% abaixo do programado.

Na plataforma interbancária, os juros a futuro já subiram de bate-pronto. Algo como uma ''precificação'' preventiva de um iminente aumento da Selic sem aviso prévio. Ou antes da próxima canetada do Copom, agendada para 23 de abril.

Com guerra ou sem guerra, a incerteza é nossa e ninguém tasca. De reunião em reunião, o arrocho monetário não se desvia da lógica estrábica - a de combater o atual ciclo de inflação de custos com xarope amargo aviado para surtos de inflação de demanda. Para o senso comum de economistas, consultores, empresários e até de sindicalistas (vixe!), só recessão derruba inflação.

Em sendo assim, basta elevar a Selic à direita da vírgula para congelar ou mesmo reverter todos os preços em liberdade em todos os setores da economia brasileira. Exatamente os preços mais bem-comportados no ventre do IPCA. O núcleo dos preços livres desabou em fevereiro de 1,91% para 1,25% (dentro do IPCA de 1,57%). O detalhe: desse bloco no declive fazem parte também os preços dolarizados por um ''overshooting'' cambial já superado.

Competiria ao Copom, escudeiro do IPCA, prestar um favor cívico ao debate nacional: discutir com o governo Lula, que está muito a fim, como amainar a febre dos preços e tarifas administrados pelo setor público. Vale refrescar aqui: de janeiro de 1995 a dezembro de 2002, oito anos corridos, o IPCA escalou 100,7%. Em seu interior, elevação ponta a ponta de 78% para os preços livres de mercado e de 238% para os preços tabelados de governo. Estes, fora do alcance da panacéia da Selic - um mal desnecessário.

O duro é aguentar a retórica monitorada pelo sistema financeiro, ganhador líquido da ''austeridade monetária responsável e inabalável''. Afinal, o negócio é não solapar a ''confiança do mercado'', como se confiável fosse o capital volátil que nos deu uma pastosa banana no ano passado. Da qual ele mesmo se confessa, hoje, arrependido.

E que tal fertilizar a confiança do capital produtivo, outra vez na moita da incerteza? A quem o leitor faria agrado ou curvaria a espinha: ao capital volátil ou ao capital produtivo?

Secos & Molhados

Hipocondria - Para cima, todos os demônios empurram. A Selic sobe por causa da inflação, por causa da eleição, por causa da aversão, por causa da corrupção. Ela volta a subir por causa do risco País, por causa do câmbio, por causa dos argentinos, por causa dos americanos, por causa dos barris de petróleo, por causa dos barris de pólvora...

Sem trégua - Se o problema agora é Bush, Saddam & Cia., o viés de alta acabará mantido por tempo indeterminado. Guerra curta ou guerra longa, tanto faz. Somos todos reféns de um ''espírito de cautela'' em overdose - no limiar da covardia. A tal ponto que, quando não temos problemas, inventamos fantasmas.

Força zero - Política monetária anoréxica casada com política tributária criogênica. E tome estagnação da economia brasileira, um tigre enjaulado vestido de anta. Em oito anos de governo FHC, crescimento anual médio de 2,2%. Neste triênio 2001/2003, abaixo de 1,5%. Crescimento zero do produto por habitante.

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