JOELMIR BETING
''Desenvolvimento sustentável é atender a todas as necessidades do presente sem solapar a cobertura das necessidades no futuro.''
Amartya Sen, Prêmio Nobel de Economia
A guerra da água
O acesso à água potável é um direito humano ou mais que isso: é um direito animal. Ocorre que, nesta decolagem do século 21, o século da água, nada menos de 1,2 bilhão de terráqueos continuam excluídos da cota diária mínima. No limite da sede, sem contar a fome. Pela inércia do desafio, serão 2,5 bilhões até 2020.
Essa aritmética do Apocalipse é do Conselho Mundial da Água e faz o gráfico de fundo do Fórum Mundial da Água, instalado esta semana em Kyoto, com 169 países a bordo. Sim, na mesma cidade japonesa em que um terço do planeta sem juízo endossou o Protocolo do Clima. Por que não um Protocolo da Água?
Especialistas da ONU, promotora deste Ano Internacional da Água Potável, estimam que a cota mínima para a cobertura das necessidades de cada ser humano seria da ordem de 50 litros por dia.
Para ingestão direta, preparação da comida, higiene pessoal, uso sanitário e limpeza doméstica.
No Fórum de Kyoto tem-se como factível, até 2015, algo mais que evitar a exclusão em dobro no acesso à água - também reduzir pela metade os que vegetam abaixo da cota mínima. O que vai depender, evidentemente, de políticas ousadas, de controles severos, de tratados adultos, de tecnologias adequadas e de capitais intensivos. Só.
O problema é que a água de uso domiciliar vem sendo disputada em escala crescente pela industrialização dos emergentes, pela maior irrigação das lavouras (já da ordem de 45% do consumo mundial) e, na contramão, pela desertificação continuada das regiões mais carentes dela. O Iraque troca óleo bruto por água potável com a Bulgária. Nesse escambo, a água vale sete vezes mais que o óleo.
E o que dizer dos estragos de qualidade perpetrados em bola-de-neve pela dobradinha do horror ambiental? Poluição orgânica casada com poluição química. Esta, já detectada até mesmo em aquíferos de grande magnitude e grande profundidade. Aqui, a coisa trespassa a crise da água e desfila crachá de a morte da água.
Pois vem aí a guerra da água, com exposição de motivos legitimada pela sobrevivência meramente biológica de milhões de seres humanos. Nada a ver com a lambança política da atual guerra do petróleo alheio. Até porque existe alternativa de massa para o óleo, mas não para a água. Sem ela, não se faz nem Coca. E não haveria água-de-coco suficiente para todos.
O cálculo foi destilado ontem em Kyoto: nesta travessia de 2003, os 6,2 bilhões de terráqueos devem consumir 4.150 km3 do cada vez mais valioso líquido. Dá para imaginar o tamanho desse cubo d'água?
Pois do lado da oferta temos que só 2,6% da água do planeta é doce. Ainda assim, 71% dela estão congelados nos arcos polares. E, dos restantes 29%, dois terços permanecem sepultados em lençóis economicamente inacessíveis e um terço transita pela superfície terrestre, levando o chumbo grosso da poluição química e da infestação orgânica. Dá pra tomar uma AmBev antes?
Secos & Molhados
Volumes - Os países e regiões de maior disponibilidade (em m3 por habitante/ano): Groenlândia, 10,7 milhões; Alasca, 1,6 milhão; Islândia, 610 mil. Os de menor disponibilidade: Kuwait, 11 m; Emirados, 58; Bahamas, 66. Fonte: FAO/World Water.
Qualidade - Pela mesma fonte, as águas de melhor qualidade natural, pela ordem, estão na Finlândia, Canadá, Nova Zelândia, Japão e Escócia/Inglaterra. A água do ''scotch'' é única. As de pior qualidade pela própria natureza são as da Bélgica, Marrocos, Índia, Jordânia e Sudão. Se a água belga é a pior do mundo, a cerveja belga é tida como a melhor do mundo.
Bebedores - O maior consumo por habitante/ano, para variar, é o dos Estados Unidos: 2.230 m3. Em segundo, o Canadá, com 1.670 m. Na América Latina, 480 m. Na África, sempre na rabeira, nada além de 145 m. A União Européia contenta-se com 740 m. É pouco, ainda que se releve sua otimização dos usos da água.
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